Espaço público a preço de saldo

19 May, 2010 by  

Esta história não está completamente contada, mas tentaremos aqui perceber em voz alta, se possível com a colaboração dos estimados leitores.

A TESA, conhecida marca de fita-cola, está a fazer uma campanha publicitária nas ruas de Lisboa. A ideia é tapar os muitos buracos existentes nas ruas, e depois um writer pinta no chão a imagem que têm aí em cima.

Bem, isto é publicidade, certo? Certo. Quanto pagará a TESA a Lisboa para ter esta publicidade?

As notícias que saíram ontem no DN, no PÚBLICO e na Marketeer dizem:

Segundo Bernardo Cardoso, da The Street, a marca investe 20 mil euros. “A Tesa paga as taxas necessárias para uma acção como esta e os custos da Polícia Municipal, ficando a câmara responsável por tapar os buracos“, contou ao DN.

in DN

Dentro de poucos dias haverá, para regozijo dos automobilistas que diariamente circulam na capital, menos 100 buracos nas ruas de Lisboa.

As ruas do Ouro, Nova do Almada e de D. Pedro V, e as avenidas Lusíada, da Venezuela e da Índia são algumas das artérias nas quais a câmara municipal vai intervir, no âmbito de uma acção promocional da marca Tesa. A iniciativa arrancou ontem na Avenida de Brasília, onde funcionários da autarquia repetiram o procedimento habitual para tapar buracos na estrada: espalharam cola asfáltica, com uma pá distribuíram massas frias de betuminoso e por último bateram toda a área com um maço, nalguns casos manual e noutros mecânico. A diferença é que depois de terminado este trabalho entrou em acção um writer contratado para o efeito, que com tinta em spray gravou no chão as palavras “piso reparado” e o logótipo do fabricante mundial de soluções auto-adesivas.

A ideia foi da agência The Street, cujo director de new business explicou que estas pinturas permanecerão no pavimento, no local onde antes existiam buracos, durante um mês. Bernardo Barreiros Cardoso destacou o “benefício social” desta acção, na qual a Tesa investiu cerca de 20 mil euros, incluindo o pagamento das taxas respectivas à autarquia.

Em 2010, a Câmara Municipal de Lisboa planeia investir 8,8 milhões de euros na repavimentação de 280 artérias.

in PÚBLICO

Arrancou ontem uma acção da Tesa em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, que visa reparar e tapar cerca de 100 buracos em algumas das principais vias da cidade. O departamento de mobilidade, infra-estruturas e obras municipais da autarquia ficou responsável por ceder os recursos humanos para uma intervenção que foi integralmente financiada pela marca de material de escritório e construção, e que se desenvolverá ao longo de dois dias. A iniciativa foi pensada pela The Street e permitirá repavimentar zonas como a Baixa (Rua do Ouro), Chiado e Príncipe Real (Rua do Alecrim, Rua da Escola Politécnica), Rua Alexandre Herculano e Avenida Brasília. Todos os buracos intervencionados serão assinalados com uma pintura da marca Tesa com a mensagem “Piso Reparado”.

in Marketeer

Começa aqui então o nosso exercício especulativo:

A TESA fala em “benefício social” da campanha. Dá a ideia que paga a reparação dos buracos. Mas por outro lado investiu 20.000€ para tratar de 100 buracos na R. do Ouro, Nova do Almada, D. Pedro V, Alecrim, Escola Politécnica, Alexandre Herculano, Chiado, Av. Lusíada, da Venezuela e da Índia. Não é coisa pouca. O orçamento da CML para reparação de pisoem 280 ruas, em 2010, é de 8,8 milhões €.

Fazendo as contas por alto, assumindo o eventual erro por nenhuma rua ser igual a outra, dá 31.429€ por rua (8,8 milhões € a dividir por 280 ruas). Ora, a iniciativa da Tesa, a ver pela notícia, será feita pelo menos em 10 ruas (algumas delas grande avenidas). Pelas contas, daria 314.290€. Bem longe dos tais 20.000€ da notícia.

Bem sei que a notícia da Marketeer fala no pagamento integral das reparações, por parte da TESA, mas já vi também jornalistas desmentirem essa informação no Facebook (sim, nós também podemos fazer notícias com elementos do Facebook). As declarações de Bernardo Cardo são inequívocas, pelo que é mais provável um engano na notícia da Marketeer.

Ou seja, parece que os 20.000€ que a TESA paga são mesmo só as taxas da publicidade e policiamento da obra. E fazem publicidade nas ruas de Lisboa durante um mês, mais todas as notícias que estão a surgir na comunicação social. O custo maior, o da reparação, fica a cargo da CML. “Benefício social” para quem, afinal?

* fotografia retirada do artigo da Marketeer

Comments

8 Responses to “Espaço público a preço de saldo”
  1. ... says:

    Há mais «perplexidades», como por exemplo:

    • É legal pintar publicidade nas ruas? Foi pedido um parecer ao IMTT? Não há perigo de acidentes?

    • Passado um mês, o que acontece? A Tesa tem produtos especiais de limpeza e assume os custos, e faz publicidade mais uma vez, e assim sucessivamente? Ou a coisa vai-se prolongar no tempo, se a tinta for decente, e eles continuam a pagar taxas de publicidade até desaparecerem?

    • Afinal, quem é que paga a reparação? Está tudo muito mal explicadinho…

    • Tiago says:

      Na notícia do DN diz que é a CML a pagar a reparação.

      Segundo Bernardo Cardoso, da The Street, a marca investe 20 mil euros. “A Tesa paga as taxas necessárias para uma acção como esta e os custos da Polícia Municipal, ficando a câmara responsável por tapar os buracos“, contou ao DN.

  2. hrelogio says:

    Confesso que sendo eu um simplista não percebo.

    – Não vamos ter 100, não 1, nem 2, nem 20 mas 100 buracos tapados nas principais ruas de Lisboa?

    – A CML (leia-se todos) não vai receber €20.000, que em circunstancias normais não receberia o que pode-se dizer que é muito ou pouco, mas é o que é.

    – A CML não teria sempre e de qualquer forma que tapar os buracos?

    Se o dinheiro vai para o bolso da direita (pagar o buraco) o para o bolso da esquerda (pagar taxas) interessa assim tanto?

    E mesmo que faça assim tanta diferença o bolso para onde vai.
    Sendo nas principais ruas da cidade, quantos carros passam por esses buracos diariamente e quantas pessoas incomodam e continuariam a incomodar por tempo indeterminado?

    Enfim, fica o convite a sorrir e comer uma peça de fruta.

    • Tiago says:

      O problema não é os 20.000€ pagarem as taxas ou a massa betuminosa para reparar o buraco. Em última análise, porque as taxas são um imposto e não o pagamento de um bem ou serviço, o dinheiro irá sempre para a reparação.

      A questão é se estamos (Lisboetas, cidadãos, pagantes de impostos) dispostos a ver a cidade constantemente invadida com publicidade a preço de saldo. Tens de concordar – se estiveres por dentro dos preços praticados – que 20.000€ para a publicidade que já estão a ter é mesmo quase dado.

      Leva a ideia ao limite – cada buraco reparado ter um patrocinador – e imagina como fica a cidade. Eu não gosto, prefiro mesmo a peça de fruta que dizes. E não é por falta de vontade de sorrir. É por gostar de sorrir com outras coisas. A prostituição rasca sempre me deprimiu, nunca me deu vontade de sorrir. E é isto que está a acontecer em Lisboa de há uns anos para cá.

      Mais uma vez, leva a ideia ao limite. Que cidade venderá melhor (relação preço/m2, leia-se) o seu espaço público para publicidade? Uma que esteja já saturada de informação e poluição visual (por favor, não tomes o termo poluição no sentido pejorativo), ou outra bem cuidada, bem apresentada, que atraia por esse bom aspecto carradas de turistas?

      Dir-me-ás que os 20.000€ ajudam a pôr bom aspecto na cidade. São apenas 0,002% do orçamento necessário para a reparação das ruas.

      Ou a ideia é mesmo apostar numa cidade caótica, que atraia turismo que goste de ver a "beleza" do desleixo? Lembro-me do prémio que Lisboa ganhou há semanas, que tinha por base essa curiosidade pelo exotismo dos bairros históricos a cair de podre, a baixa pombalina completamente avacalhada de placards de fiadores e agências de viagens.

  3. meio copo says:

    é por causa de opiniões de desinformados e empedernidos mentalmente como os senhores que neste país não há mais acções deste tipo. Pensem. Grafitti controlado? isto mata alguém? os buracos não seriam tapados de qualquer forma?

  4. PedroCG says:

    Uau. "Empedernidos mentalmente" é mesmo muito bom. Causa efeito, faz lembrar a célebre "pseudo intelectuais" que também não quer dizer nada. Presumo que terá conhecido muitos empedernidos fisicamente. Tipo a estátua do D. José na Praça do Comércio.

  5. meio copo says:

    Pedro, como podia ter entendido, passei um exagero. No fundo a minha opinião é concordante com a de Hrelogio, mas eu sou menos paciente com desinformados. E não seja assim, sabe bem que uma estátua é um objecto inanimado. Empedernidos fisicamente somos nós, em frente ao computador num dia de sol como este.

  6. polegar says:

    o benefício social refere-se ao "aluguer do espaço" e dos serviços policiais inerentes.
    passo o paralelismo para a área do cinema, que domino um pouco melhor: quando uma produtora precisa de filmar exteriores, têm de fechar-se ruas e inviabilizar muitas vezes alguns lugares de estacionamento. e para isso usa-se a polícia – cujos serviços extra são pagos à parte.
    normalmente as produtoras têm de pagar à Câmara essas despesas. obviamente que o tempo de utilização do espaço público é diferente: no caso do cinema é intenso e até invasivo mas são uns dias, no caso deste anúncio, foram efectivamente umas horas para "pintar", mas a publicidade lá ficará uns meses.
    se compararmos – proporcionalmente – com os valores que uma produtora de cinema paga à câmara, 20 mil euros é muito.
    se compararmos com qualquer meio publicitário de exterior (mupis, outdoors, fachadas de prédios, etc), é uma ninharia.
    sei do que falo, sei o que custa arranjar a "cunha oficial" para espalhar uns simples cartazes de teatro num espaço legal, quanto mais campanhas publicitárias com grandes parangonas.

    considero maravilhoso que tapem a porcaria dos buracos, que já me custaram os tampões dos pneus, e ao meu namorado bons sustos na mota.
    se a Tesa financiasse efectivamente as obras, não me custaria muito ver lá o anúncio no chão durante uns tempos. era dinheiro que a câmara pouparia para outros gastos.

    mas tendo em conta todos os factores… foi uma grande negociata, foi.

Speak Your Mind

Tell us what you're thinking...
and oh, if you want a pic to show with your comment, go get a gravatar!