O MEU PRECONCEITO BEN&JERRY’S
10 May, 2010 by Filipe Matos

Tenho andado um pouco mais atento ao comércio de Lisboa. Aparentemente, sou céptico quanto aos óbvios benefícios da globalização, especialmente porque sinto que a comunidade [local] fica quase sempre a perder um pouco…
E gostava que me ajudassem a compreender esta questão: há ou não uma visão romântica/saudosista sobre o passado e a forma como as coisas se passavam “dantes” e um preconceito ao que vem aí de novo?
Ali a Baixa-Chiado está relativamente caduca, e parece-me que a única coisa que floresce são duas coisas: as lojas de venda da identidade portuguesa (souvenirs), geridas por indianos (perdoem-me os paquistaneses); e alguns franchisings, tipo H&M e que tais. Isto vai na lógica do Lisboa-cosmopolita, porta atlântica, cidades globais, isso tudo do “desenvolvimento”, mas claro – digo eu – peca pela óbvia e progressiva descaracterização. Porque os indianos (perdoem-me) mal falam português e estão a vender galos de Barcelos, porque os funcionários das H&M são trabalhadores temporários descartáveis e precários, que não devem ter grande sentimento de pertença por ali nem constroem pró-activamente uma identidade local, porque a gestão da marca é feita sabe-se lá onde, sem grande interesse pelo que se passa na rua do Ouro ou pela Augusta: estar ali a loja ou não parece ser apenas uma questão de marketing, branding, advertising, etecetering…
Ora, intuitivamente isto parece-me não ser o melhor caminho, assim pó insustentável. Esta coisa de ficar à mercê dos “mercados financeiros globais”, isso ‘tá muito longe de mim, dos dali da Baixa e dos demais que vivem Lisboa…
A minha preocupação, é que no outro dia uma amiga minha disse-me “vamos ali comer um gelado ao Ben&Jerry’s [Rua da Misericórdia]” e a minha 1ª reacção foi: “então mas e a Häagen Dazs? Essa é que é a [minha] tradição do Chiado”. E só aí é que me apercebi, que a Häagen Dazs, puro franchising, regido pelas leis ing, já faz parte da minha identidade do Chiado.
Será que o Jerónimo Martins, quando abriu, no Chiado, em 1782, a sua primeira mercearia ou assim, também foi um intruso-da-suposta-identidade tipo Ben&Jerry’s lá da época? Se calhar até levou à falência o Sr. Manel que tinha uma mercearia no Camões… e no entanto o supermercado Jerónimo Martins foi (ou não?) durante tanto tempo parte da identidade tradicional do Chiado… (e ainda por cima o B&J tem pra lá coisas fair trade e não sei quê…)
Será que o meu preconceito anti-globalização, afinal de contas, não faz sentido?! Tenho saudades de um tempo que não vivi em que as coisas eram… iguais a agora? Os franchisings são papões globais ou ‘tá tudo completamente dependente das pessoas que os gerem, que podem tender para um lado (€ global) ou para o outro (qualidade local)?
Quem é que, afinal de contas, gere e regula os nossos centros comerciais de rua?
É que é bem urgente que haja alguém que dê alguma harmonia aqui à coisa. Que haja alguém!
PS: o Ben&Jerry’s é um franchising do Grupo Jerónimo Martins.



Não sei até que ponto faz sentido ser "contra" a globalização. O mundo está a mudar, e os pilares e moldes das coisas que conhecemos também. A minha avó foi ao estrangeiro pela primeira vez aos 30 anos, eu ainda só tenho 22 e já conheço basicamente todos os países da UE. Isso para mim é um bocado estranho.
Acho que a globalização nao tem que ser uma coisa má. Pelo contrário, tem potencial para ser uma coisa com imensas consequências positivas. É verdade, nem tudo será perfeito. Mas, também, o que é que o é? O comércio local também sempre teve as suas desvantagens. Será que o facto de ser regido pelo tal de senhor manel faz com que aquele posto de comércio seja melhor?
A única coisa que me irrita mais é a desvantagem competitiva que o comércio tradicional tem perante as cadeias de franchising: que, independentemente de serem melhores ou piores, têm mais recursos, e, portanto, maiores probabilidades de sobrevivência. Mas as empresas pequeninas têm de se mexer, criar corporações, associações, coisas.
Vamos ficar bem, vais ver. Que até as coisas mais inesperadas passam a tradição! (não sei se conheces o são Gonçalo de Aveiro e as festas em sua honra…?)
Gostei muito do artigo, acho que claramente me pôs a pensar! Continuem!:)
Uma boa resposta que o comércio local e com identidade de bairro pode dar é qualquer coisas como foi feito em Madrid, no Bairro das Letras. Uma verdadeira associação comercial e cultural, que senta na mesma assembleia os donos das Bodega, das loja de decoração, o director do Thyssen em estreita cooperação com as associações de moradores, tudo para que a resposta do Bairro seja harmoniosa, potenciadora do turismo, da identidade do bairro, da cidade, que respeite quem lá habita.
Podem ver aqui:http://www.barrioletras.es/
muito interessante o bairro das letras! pela Baixa diz-se que é tudo muito … velho {em múltiplos sentidos}
Partilho as angústias mas, tento sempre ter presente a história do velho do restelo para me balizar. É bom lembrar que, em última análise, todas as tradições são inventadas (e reinventadas), se isso nos servir de consolo. A loja da Catarina Portas e congéneres não são mais do que vendas de saudosismo empacotado, e isso é mau? Talvez não convenha sobredosear. Quanto à globalização (e como dizia o outro) podemos sempre agarrar-nos á ideia de que o small dentro do big is beautiful.
PS – ok, confesso que a chegada do starbucks também me fez impressão.
A globalização para mim é um mal menor. Nós ainda temos o poder de escolher. Não bebo no Starbucks o café… sou ao Horta Café… ou então bebo em casa pelo método tradicional
Carlos,
A minha preocupação (e que tentei passar) é que o nosso livre arbítrio está completamente dependentes do ambiente à nossa volta… e, na verdade, é isso que é o marketing, não? "vamos estudar a mente, os comportamentos, para saber como fazer um lisboeta gostar mais do starbucks do que dos pastéis de Belém!" É legítimo? Temos o poder de escolha, claro, mas se sou educado socialmente para comer o mais rápido possível (porque é preciso ser super-produtivo, eficiente), porque hei-de ir a um restaurante esperar meia-hora pelo bacalhau, se o mcdonalds me serve em 3 minutos? É legítimo? Não há ninguém que regule isto?
Mas será que o Mac já serve Bacalhau? é que se já o faz avisem-me que eu vou lá…
e depois há uma coisa que avalio pela positiva… a qualidade de vida… não preciso andar a correr; posso esperar 1 hora pelo bacalhau… mas acima de tudo prezo o que é bom… e há muita coisa que vem lá de fora que, sinceramente, só tem nome (tipo jogadores de futebol do SCP este ano)… confesso que adoro o que é tradicional e nacional! Há coisas boas em todo o lado e temos sempre que escolher, agora comparar um Belo Bacalhau à Lagareiro com o BigMac é o mesmo que comparar um Ferrari com um ctiroen 2CV… Gostos não se discutem mas prefiro o Ferrari.