Síndroma Nespresso

8 May, 2010 by  

Porque é que as pessoas vivem onde vivem? Como é que se escolhe onde viver? São muitos os critérios a ter em conta ao escolher uma nova casa – o preço, a qualidade de construção, o estacionamento, a proximidade de comércio e de infra-estruturas como transportes públicos, escolas e outros serviços. Era possível fazer uma lista, somar as pontuações e escolher a melhor de todas as casas.

Mas uma casa, ou um bairro, é muito mais do que uma lista de atributos. Tal como as pessoas, tem uma identidade. É difícil sentir esta identidade quando estamos dentro de casa a ler um livro, a ver televisão, ou a passear pelo facebook. É difícil sentir esta identidade quando se sai do elevador directamente para o carro na garagem e em cinco minutos estamos numa via rápida. A identidade sente-se quando partilhamos os espaços e nos cruzamos com as outras pessoas da nossa comunidade. Quando vamos ao café ou ao mercado, quando os nossos filhos brincam com os filhos dos nossos vizinhos num jardim que é de todos.

Nas nossas cidades, o espaço privado está a esmagar o espaço público. As casas são cada vez mais confortáveis, mais completas – como células de vida onde podemos sobreviver para sempre. Há muito que não precisamos de ir ao café para ver televisão, para telefonar ou para beber café. Já não precisamos de ir ao cinema para ver um filme nem de ir ao quiosque comprar o jornal – temos internet e home-cinema, temos Nespresso.

Se é uma vitória podermos optar por todo este conforto, é o espaço público que perde significado e desaparece.

Será uma opção de cada um de nós, e de cada bairro, vivermos mais isolados ou em comunidade. Ainda existe esperança e muita oferta em bairros como Campo de Ourique ou Bairro Alto. Os bairros que conseguirem manter este espaço vivo irão manter a sua identidade. Acabar com isso é transformá-los em bairros suburbanos.

Comments

5 Responses to “Síndroma Nespresso”
  1. Adoro Campo de Ourique! Um bairro com uma forte identidade e um espaço público cheio de vida que importa preservar.

    Mas o desafio para a Cidade é também que bairros novos que se vão formando, como a Alta de Lisboa, consigam dar vida ao seu espaço público e criar a sua própria identidade.

    Os moradores de Campo de Ourique também têm Nespresso!

    O que os faz então sair de casa, comprar o jornal, encontrar-se com os amigos numa esplanada, passear pelas ruas do bairro, fazer compras no mercado, sentar-se no jardim?

    • Alfredo says:

      Essa é "a questão". Podemos dizer que são os jardins ou o comércio mas no final acredito que é mais do que isso. Vimos no "Vizinhos" como até num bairro sem as condições básicas pode existir um sentido forte de pertença. Às vezes até parece que é mais fácil!

      Vejo a identidade dos bairros como o ADN que demora muitos anos a construir e não sabemos ao certo como se chegou lá.

  2. Ana Barata says:

    Luísa, talvez seja um pormenor importante ter um sítio no bairro onde comprar o jornal, ter uma esplanada onde se encontrar com os amigos, ter um mercado onde fazer compras, ter um banco confortável (com encosto) onde as pessoas se possam sentar no jardim… Na Alta de Lisboa ainda não há nada disto.

    Em bairros como Campo de Ourique, as pessoas poderão ter Nespresso, internet e home-cinema, mas têm alternativa. Podem escolher, podem alternar as suas escolhas. Umas vezes em casa, outras na rua. Na Alta, a oferta é mais reduzida, por enquanto.

    Por isso é que são tão importantes as opções de quem planeia e constrói Cidade. Porque, mal ou bem, condicionam as nossas vivências de bairro e a sua identidade.

    • Tiago says:

      Exactamente, Ana. Por isso é tão importante a população e as instituições que dela nascem saberem exigir a quem de direito, quem planeia e constrói a Cidade, os executores do plano, o cumprimento das promessas e das obrigações morais que têm para com milhares de cidadãos.

      Talvez um dia, quando mais do que apenas 4 das dezenas possíveis forem subscritores de documentos de pressão junto dos decisores, enfim, quando as pessoas perceberem que a união faz a força, seja também possível aqui sair de casa para comprar o jornal, encontrar-se com os amigos numa esplanada, passear pelas ruas do bairro, fazer compras no mercado, sentar-se no jardim.

  3. Era isso mesmo que eu queria dizer. As pessoas vivem o espaço público porque esse espaço tem algo para oferecer e as convida. E as pessoas sentem-se bem nele.

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