Os entaladinhos

19 April, 2010 by  

As relações entre a arte e o poder nunca foram muito limpas, que o digam os arquitectos de Lisboa. Durante o Estado Novo, o regime gostava muito daquele realismo neoclássico que é tão amado pelas ditaduras. O ditador sonha, o arquitecto faz e a obra nasce. Foi assim que o regime colocou como obrigação, dos arquitectos, incluirem sempre uma peça de arte desse género nas fachadas dos novos prédios. Os pobres davam voltas à cabeça para arranjar uma forma discreta de integrar a arte de quem mandava, sem lhes estragar demasiado os prédios. A maioria dessas  obras foram colocadas por cima das portas de entrada, em prédios das chamadas avenidas novas de Lisboa. A solução encontrada contribuiu para a alcunha de tão decorativas estatuetas. As lindas estatuazinhas eram normalmente uma mulher de túnica, com ar romano, recostada na sua liteira, tudo para ocupar menos espaço: ao alto dava cabo da maior parte da fachada.  Os entaladinhos foi a alcunha que ficou.

Os animais costumam marcar território com a urina, os príncipes com edifícios. Nem sempre as ditaduras e o terror resultaram em má arte – veja-se a entrada de Orson Welles, no filme o Terceiro Homem, em que ele explica as diferenças entre Itália e a Suiça –, infelizmente os nosso Borgias locais só produziram os entaladinhos. Nem tudo é mau, os truques que os arquitectos lisboetas usaram, para contornar a imposição da má arte, são fascinantes. Basta olhar para os telhados de alguns prédios da Avenida de Roma, perto do Centro Comercial e conseguir ver umas estatuetas encavalitadas nos telhados.

Comments

3 Responses to “Os entaladinhos”
  1. O problema principal foi prepotência, a imposição e a falta de regras claras. É verdade que alguns arquitectos não gostaram da ideia, mas uma boa parte deles insurgiu-se principalmente contra à fraca qualidade das "obras de Arte" encomendas por empreiteiros (patos bravos dos anos 30 e 40) a alunos recém saídos das Belas Artes.

  2. A ideia foi meritória, mas um decreto como este, impositivo, sem regras claras, tinha que dar mau resultado. É verdade que a obrigatoridade de integrar nas fachadas dos edifícios uma "obra de arte" nas agradou aos arquitectos, mas talvez mais do que "problema" de ingerência no seu trabalho era a liberdade que os empreiteiros tinham para serem eles a tratar do assunto. Os escultores escolhidos (embora haja muitas excepções), eram artistas recém saídos das Belas Artes que, sem grandes rasgos criativos ou grande qualidade plástica, faziam o seu trabalho por muito pouco dinheiro.

    O nome "entalado" surgiu de um texto de Arquitecto Francisco Keil do Amaral que se referia precisamente as pobres senhoras entaladas entre as portas de entrada dos edifícios e as varandas do 1º andar. Pessoalmente parece-me que apesar da qualidade duvidosa de muitas das "obras de arte", há também trabalhos excelentes e quer se queira quer não os "entalados" fazem parte do património da cidade de Lisboa.

    Há cerca de 6 anos tentei recolher alguma informação os "entalados", tive com a Maria Keil e penso que ainda falei telefonicamente com Pitum Keil do Amaral, filho do Arqº Francisco Keil do Amaral, também me encontrei com o Arquitecto Tudela, antigo Director do Departamento de Urbanismo da C.M.L. (de quem o Engº Kruz Abecassis dizia ser a única pessoa que conhecia Lisboa melhor que ele). A informação que recolhi não foi muita mas deu para perceber que há assunto para uma excelente tese de mestrado. Aqui fica a ideia!

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