Little Lisbon
26 March, 2010 by Pedro

No seu último livro, um outrora famoso e agora mui esquecido escritor afirmava que a realidade era muito mais surpreendente do que a ficção. Este diálogo, feito de dois monólogos, é a minha tentativa de aproximação ficcional à realidade que nos envolve. Evidentemente (nestes tempos de escutas, processos e acções), qualquer semelhança com esta é puríssima (tão pura quanto a água que a EPAL nos fornece) coincidência.
“- Bom dia, era para informar que estou com a casa cheia de água, está-me a entrar pelo tecto…
– Desculpe, mas eu só trato de casos efectivamente graves – está alguém em perigo de se afogar?
– Não, isto não é uma inundação… Tenho é tudo a estragar-se e as crianças assim não conseguem cá estar…
– Crianças? São refugiados? Têm problemas de delinquência ou instabilidade emocional?
– Não, estão aqui durante o dia enquanto os pais trabalham.
– Trabalham? Nem estão desempregados? Então podem pô-los noutro lugar, há mais lugares em Lisboa onde os podem pôr. Que pais são esses que deixam os filhos apanhar água?
– Ehr… Escute, estamos a afastarmo-nos do problema. O problema é que a cobertura está partida, entra água e sendo vossa a responsabilidade…
– Nossa? Responsabilidade? Somos os donos do seu prédio?
– Falo de responsabilidade moral e ética, uma vez que está acordada a construção de novas instalações…
– Ah, pois, mas responsabilidades não é comigo vou passar-lhe aos serviços jurídicos.
– Jurídicos? Eu só quero que este problema seja resolvido
– A senhora sabe quantos prédios estão em risco de ruírem? Sabe as urgências que tenho de tratar diariamente?
– Eu compreendo isso mas todos os anos temos este problema e todos os anos o senhor presidente afirma que desta vez é que vai ser…
– Isso o que disseram os outros presidentes já não tenho nada a ver. Esta vereação faz tudo para cumprir os objectivos e programas que apresentou e pelos qual foi eleita.
– Mas este presidente já disse o mesmo…
– Pois. Se o programa foi ele que o subscreveu…
– Não, já disse o ano passado que o problema este ano não se repetiria.
– Disse? Onde? Não terão sido os jornalistas a inventar essa calúnia?
– Não, quando cá esteve, ele disse e eu ouvi…
– Tem a certeza do que ouviu? O ano passado tínhamos muitas restrições orçamentais e além disso já caíram 4 prédios nas últimas semanas. Ora o senhor presidente não podia prever que iriam cair tantos prédios.
– Mas os prédios eram novos?
– Acha que os prédios eram novos? Então os prédios novos que a Câmara licencia caiem assim sem mais nem menos?
– Eram muito velhos?
– Velhíssimos! Estava-se mesmo a ver que, se não fossem as obras que já estavam prometidas, iriam cair!
– Estou a ver. E o meu problema?
– Qual problema?
– O da água.
– Cortaram-lhe a água? Isso é com a EPAL.
– Não, o da água que me cai pelo telhado.
– O melhor é pedir aos Serviços uma vistoria. Eles interditam-lhe o prédio e intimam o proprietário para fazer obras em vinte dias.
– Mas os proprietários somos nós…
– Então os senhores são proprietários e têm a lata de me estar a telefonar a pedir apoio?
– Escute, eu estou a telefonar-lhe porque temos um acordo com a autarquia para que ela nos construa novas instalações porque estas estão muito para lá de reabilitação e além disso os senhores precisam do espaço para construir a avenida…
– Avenida? Mais estradas? Nós estamos em contenção de despesas e precisamos das verbas para outros problemas mais urgentes – sabe quantos prédios já caíram nas últimas semanas? Cinco! Sabe quantas pessoas temos de realojar?
– Mas a avenida está projectada há muito e foram os senhores que apresentaram o projecto!
– Nós? Qual projecto?
– O projecto de urbanização…
– O PLANO de urbanização! Mas isso não fomos nós!
– Então não foi a Câmara…?
– Não, foi há dois ou três presidentes atrás!
– Então a Câmara não é a mesma?
– Oiça, não faz parte desta vereação cumprir as promessas dos outros. Se fosse para as cumprir eram eles que tinham sido eleitos. E não foram! O povo de Lisboa rejeitou liminarmente as promessas dos nossos opositores. Por isso, se não tem avenida vá reclamar com eles!
– Mas esta avenida é essencial para que a zona se possa desenvolver…
– A zona não se está a desenvolver? Há prédios por acabar? Aí ainda há bairros de génese ilegal com construções precárias ilegais?
– Não, já não há barracas, mas…
– Não percebo então o que mais quer. Temos de estabelecer prioridades, há muitos prédios a cair em toda a cidade.
– Bom, neste momento, eu só queria que me deixasse de chover cá dentro.
– Ah isso da chuva… Tem chovido muito este ano, não é? Ainda outro dia estava numa reunião e alguém disse que choveu quase três vezes mais num mês do que é costume em todo o Inverno…
– Diga-me uma coisa: acha que se nós fizermos uma exposição ao senhor presidente perguntando-lhe quando é que vamos ter as novas instalações…
– Exposição? Quando é que vai fazer a exposição?
– Eu li que, por acaso, no próximo Domingo ele virá aqui ao Bairro inaugurar…
– Não vem nada! Estes jornalistas para inventar…
– Não, foi num mail doutro Serviço que nos tinha convidado para levarmos as nossas crianças a umas actividades que iam ser feitas na presença do senhor presidente…
– Deste presidente? No Domingo? Leu mal…
– Não, se quiser eu posso reenviar-lhe o mail
– Eu estou a dizer-lhe que não vai – está a dizer-me que minto?
– Não, não, provavelmente são os seus colegas…
– Que mentem?
– Não, não. Devem é ter também muitos casos urgentes para resolver e trocaram as datas… E a exposição?
– Isso é com o departamento da cultura.
– A exposição ao presidente?
– É melhor enviar-ma a mim.
– Eu gostaria muito de a entregar directamente ao senhor presidente…
– Sabe, o senhor presidente fez a delegação de competências para tratar desses assuntos em mim. Seria uma quebra de protocolo grave, para além de eu considerar que me estava a pôr em causa e à minha competência.
– Mas não me disse que não tinha tempo nem verbas?
– Pois disse. Sabe quantos prédios caíram em Lisboa nas últimas semanas? Seis!”



Muito bom, Pedro! Já tínhamos comentado no facebook, mas esquecemo-nos que depois não fica aqui nada. E com isto tudo já deve ir em sete ou oito, não?
Hum… não sei, hoje não choveu. No PSD não caiu nada! Foi mesmo o que estava programado que aconteceu! O Carmo e a Trindade também não cairam – está tudo tão calmo… Os que deviam achar graça pensam que isto é um diálogo a sério, os que deveriam levar isto a sério fingem que isto era para ter graça. Estão-me a aplicar o tratamento Rui Mateus.
Não te preocupes que eu deixo o diálogo em destaque as semanas que forem precisas. Podíamos era fazer uma Rádio 17b com estes telefonemas. Que achas?