Aobsil
23 March, 2010 by Pedro

1984 está a um ano ou dois de distância. Talvez menos, talvez seja questão de meses até entrarmos no novo ano (estamos um pouco desvairados, é natural que o ano novo comece noutro dia que não a 1 de Janeiro).
Vivemos neste curioso país de pernas para o ar, em que um governo tutelado por um partido socialista conduz políticas de cariz neoliberal, em que um primeiro-ministro afirma que somos os primeiros a sair da crise para poucos meses depois lançar um plano de austeridade, em que o ministro das finanças jura que não vai haver aumento de impostos no mesmo dia em que faz saber que vamos dispender mais em impostos. Socialista quer dizer capitalista; realista significa ilusório; preciosista quer dizer ilusionista.
Se é assim este país porque é que em Lisboa, a sua capital, haveria de ser diferente?
No governo da cidade temos uma maioria de esquerda que se bateu – e bem – pela não reeleição de alguém que demonstrou à saciedade não estar preparado nem teorica nem politicamente para comandar o barco da cidade pelos tortuosos mares urbanos do presente. E o que faz hoje esta maioria? Aparenta comportar-se como o candidato derrotado: usa a demagogia como um instrumento de gestão; ignora reclamações de cidadãos interventores; responde às perguntas com o silêncio, à ausência de respostas com justificações balofas.
No governo da cidade temos um presidente que anuncia prazos que sabe – que são – incumpríveis .
Temos um vereador que toma decisões de controlo urbano que anulam o propósito de projectos dos quais foi autor.
Temos uma autarquia que decide, pública e legalmente, assumir a urbanização de uma área degradada da cidade, com o propósito de a tornar mais do que um dormitório, de a tornar auto-sustentável, de a transformar numa mais-valia para – a meio do processo, ignorando a sua obrigação de ser pessoa de bem – desistir.
Uma vereação de esquerda, que se diz preocupada com os cidadãos, a qualidade de vida, o ambiente urbano e que transforma um bairro com futuro e qualidade, num dormitório.
Tempos e costumes. Muito maus tempos e péssimos costumes.



Bom post, Pedro. Boa oportunidade para debater. Já tinha saudades.
Parece-me que passados uns míseros 6 meses desde as eleições, se colocam sérias dúvidas sobre quem é que está a demonstrar " à saciedade não estar preparado nem teórica nem politicamente para comandar o barco da cidade pelos tortuosos mares urbanos do presente".
E se valeu mesmo a pena a maioria de esquerda se ter unido e batido pela reeleição de outrém.
Onde está o novo PDM? O Programa Local de Habitação? O plano para a Baixa? A finalização do Túnel do Marquês? A reabilitação urbana? O Parque Mayer? O pavlilão de Portugal, na Expo? O museu africano? O concurso da piscina do Campo Grande? O destino do Panorâmico de Monsanto?
As expropriações da Santos e Castro? 0 Plano de Pormenor da Estrada da Torre? O imbróglio criado com a malha 14? A revisão do PUAL? A passividade e desinteresse com a chocante paragem das obras da SGAL?
Apetece-me perguntar, porque razão um provou à saciedade não estar preparado e o outro não? Quais são as provas? Falta de obra? As famigeradas contas, que afinal ainda estão piores, hoje? As "trapalhadas"?
Talvez seja por isso que Lisboa está ao contrário. Continuamos sempre com uns "chavões" que depois não significam nada.
É tudo muito relativo. A "tal" esquerda uniu-se para derrotar PSL, porque era PSL e tudo menos PSL. Eram contra PSL. E no fundo, não tinham nada que os unisse, que os agregasse, que os liderasse. O programa para executar era fraco, contraditório e uma manta de retalhos. E o lider estava, ele próprio, distante, sem garra, sem ideias mobilizadoras para a cidade, protegendo-se de confrontos, polémicas e decisões. O lider está à espera de outrém.
Quando foi a última vez que se viu António Costa sem ser na Quadratura do Circulo?… Na cidade, na rua…
Pedro, deixa-me dar-te aqui um abraço.
Não sei por que razões não nos deixámos iludir da mesma forma por este "projecto" da UNIR LIsboa, mas não posso dizer que me surpreenda esta tua desilusão. Os dois anos anteriores já mostravam tiques muitos acentuados de tudo que o escreves neste post. Não há dúvida que a imagem vendida foi muito bem trabalhada, que ter um site com o Carlos do Carmos a cantar "Um homem na cidade" nos dá uma confiança estética infinitamente superior ao gosto mais do que duvidoso do PSL. Mas nem sempre o bom gosto e a competência (prefiro pensar que o mal que sentimos é fruto apenas de falta de competência) andam ligados. Não sei se o PSL seria melhor (mais uma vez prefiro pensar que alguns erros não se cometem duas vezes), mas pelo menos os erros que comete são mais fáceis de entender pela maioria.
E, claro, há a arrogância da esquerda. Uma esquerda completamente vazia, cheia de rótulos, de frases-feitas, de chavões, de dogmas, que se uniu para derrotar "o candidato da direita". Quando emails e convites do facebook recebi eu sobre o assunto, sem uma única ideia de cidade em anexo? Perdi a conta.
Mas pronto, agora serão mais 3 anos e meio pela frente, até ao próximo folclore.
Terás recebido inúmera propaganda sem conteúdo porque é esse o grau de exigência que os cidadãos de Lisboa têm em relação a quem os governa; desde que os seus direitos e a sua vidinha não sejam postos em causa, desde que a degradação da qualidade de vida atinja só os outros bairros, desde que o buraco não seja por onde o carro próprio passa quem está interessado em discutir visões de cidade, propostas para a cidade, revoluções para a cidade? Muito poucos, como se vê pela quase ausência de comentários neste site, quando é esse o assunto dos mesmos….
Porquê gastar dinheiro em papel que ninguém – ou quase ninguém – irá ler?
Quanto a ilusões, fala por ti. Eu apoiei o projecto UNIR Lisboa por razões e não por utopias. Em primeiro lugar, porque, como escrevi e repeti, mais Santana para Lisboa iria ser mais descalabro. Mais folclore político, mais feerie comunicacional, mais declarações tontas e demagógicas, mais dinheiro mal gasto, mais gestão casuística (para os mais distraídos: Santana é o autor da lei da rolha aprovada no último congresso da PSD).
Em segundo lugar, porque a coligação se esgotava após a eleição, voltando a existir e passando a coexistir três grupos políticos que, embora mantendo um compromisso de união em alguns pontos essenciais, tinham uma visão própria, sendo mesmo divergentes em alguns pontos (quero continuar a crer que a prática executada pelos representantes do PS no que respeita à Alta não é nem apadrinhada nem a defendida pelos Cidadãos por Lisboa).
Em terceiro lugar porque existia um programa, existiam ideias, existiam candidatos-técnicos de reconhecido valor (como o Prof. Nunes da Silva) que eu poderia endossar.
Resumindo, sim, era importante a defesa de uma coligação para evitar um mal maior, não isso não fazia de mim nem um apoiante nem um crédulo de António Costa (principalmente quando este entrava em delírios propagandísticos como o de defender a instalação de elevadores nos edifícios da Baixa).
O que se passa neste momento é globalmente mau. Não vou repetir o post, vou só sublinhar: temos um presidente e vereadores PS que ou não sabem o que andam a fazer, ou sabem-no bem demais. Temos dois vereadores CpL que correm o risco de se ver submergidos pelas urgências sem capacidade para reservar tempo para o que é importante (ainda que continue a esperar muito do trabalho do Nunes da Silva e a ver arrancar o Programa Local de Habitação – o qual, para os distraídos, foi lançado pelo António Costa (repito pelo Costa) e implementado pela Helena Roseta). E temos um Zé em deriva completa.
Pior, começa-se a insinuar – como tu já pudeste comprovar! – um cheiro inquisitorial que me faz muita impressão. Que começa nos funcionários pequeninos mas que, a não ser combatido, contribuirá e muito para aumentar a paranoia e o isolamento dos que estão no poder. Com consequências graves.
Ok Carlos, quer discutir o Santana, vamos discutir o Santana.
O Santana foi aquele presidente que achou que gerir a Câmara Municipal de Lisboa, com os seus cerca de 10.000 trabalhadores e os 400.000 habitantes da cidade era a mesma coisa que gerir a Figueira da Foz (onde se inebriou com o sucesso aparente e onde deixou a correspondente factura das obras para o seu sucessor se entreter a pagar – veja-se, por exemplo, o majestático Centro de Artes e Espectáculos, com uma dimensão que nem Coimbra conseguiria viabilizar) – e, vai daí, resolveu concentrar serviços e direcções, levando à sua paragem durante mais de um ano e ao aumento da sua ineficácia.
O Santana é o presidente que achou que a reabilitação dos bairros históricos era lançar obras de um milhão de contos, sem projecto nem controlo técnico; que, não percebendo nada da problemática, não achou melhor que nomear e promover a postos de gestão e direcção técnicos de outras áreas (uma licenciada em pintura? uma responsável por uma biblioteca?) com pouca ou nenhuma experiência no sector; que, na sua ânsia de centralismo, asfixiou os gabinetes locais, verdadeiros locais de trabalho em conjunto com as populações, únicos locais de conhecimento da realidade diária das populações e do edificado.
O Santana é o presidente que fez publicitar em gigantescas telas sobre edifícios que ainda hoje esperam ser recuperados, os milhões de euros e os milhares de metros quadrados que iriam ser recuperados no seu mandato. Foram-se os milhões e faltaram as reabilitações porque o caminho não era este.
O Santana é o presidente que se dizia defensor da reabilitação das zonas históricas da cidade mas que, indiferente aos indícios de recuo na procura (corte do crédito bonificado, decréscimo da população), continuou a promover novos loteamentos na periferia da cidade.
O Santana é o presidente para quem o urbanismo da cidade se resumia a uma espécie de Monopoly à escala real, com leilões ou permutas de terrenos ao melhor preço. Para quem a transformação de uma área de lazer – a Feira Popular – num loteamento de terciário não passava de uma questão semântica e a instalação de um espaço de lazer – a mesma Feira Popular – numa área verde – Monsanto – nada mais do que uma questão de construir sem deitar árvores abaixo.
O Santana é o presidente para quem a frase "desporto para todos" se resumiu em anunciar a construção de uma piscina em cada Freguesia, esquecendo economias de escala nas freguesias pequenas e a enormidade de área nas grandes freguesias. Para quem, como nos caso dos edifícios, é mais importante construir do que reabilitar e que, assim, esqueceu espaços tão emblemáticos e marcantes como as Piscinas dos Olivais e do Campo Grande.
O Santana é o presidente que, no seu afã de ver obra, optou por uma política de se fazer primeiro e cumprir as regras a posteriori. Que encomendou projectos via empresas municipais para ultrapassar os condicionamentos dos concursos públicos (a Valorsul para o Parque do Casal Ventoso (onde está?), a EPUL para o Parque Mayer, por exemplo); que lançou empreitadas sem estarem concluídos os estudos e aprovações oficiais necessárias (o túnel do Marquês) abrindo a porta para intervenções jurídicas que custaram milhões aos cofres camarários. Que preferiu ignorar os estudos do Norman Foster para tudo recomeçar com Frank Gehry, sem concurso público, sem discussão pública.
O Santana é o presidente que achou por bem sacrificar a estabilidade financeira da EPUL para a usar como empresa by-pass para as suas obras.
O Santana é o presidente cuja preparação teórica para a resolução da entrada diária de mais de 1 milhão de veículos se traduziu, não na melhoria dos transportes públicos de modo a racionalizar consumos mas no reforço do convite a essa invasão com a criação de mais um túnel.
O Santana não foi o presidente que inaugurou o despesismo na CML mas terá sido o que, em toda a sua história, menos se preocupou com o controlo financeiro.
(São chavões? Faça-me a fineza de não me pôr no saco dos políticos poucochinhos que nos governam e parta do princípio que, quando escrevo o que escrevo, o faço baseado em mais do que invenções de spin doctors diligentes ou conselhos de assessores esforçados.)
E, definitivamente, como nós dois bem o sabemos, Carlos, não foi o presidente que fez bem à Alta. Ele foi apenas a pessoa que teve a sorte de ter nomeado para director da UPAL alguém com a capacidade de trabalho, de gestão de pessoal e de coragem para fazer avançar as coisas a um ritmo que sempre deveriam ter. Muitos foram nomeados antes e depois, com presidentes mais ou menos sintonizados com o projecto, e nenhum conseguiu o que esse director – Você! – conseguiu.
Para terminar e antecipando-lhe a resposta: estamos melhores agora? Não estamos. Apesar da retórica e das boas vontades anunciadas, não estamos. E é isso que me chateia e que exprimi no post.
E já me esquecia: o Santana é aquele presidente que abandonou Lisboa ao Carmona Rodrigues para alegremente vir a ser primeiro-ministro. Se isto é compromisso e dedicação à cidade vou ali e já venho.
(O Sampaio também o fez. É o mesmo tipo de compromisso e de abnegação)
Pedro,
A concentração de serviços que Santana fez, ainda hoje se mantém ao fim de 5 anos. Foi uma opção com vantagens nalguns casos e com inconvenientes noutros. Discutível, sem dúvida. Mas obedeceu a uma concepção, com razões de eficácia e de não dispersão. Poder-se-à dizer que falhou totalmente? Não creio.
Ainda hoje, sinceramente não sei. Pessoalmente sou defensor há muito que Lisboa só é gerível com a criação de 4/5 zonas, correspondendo a mini -câmaras, com poderes amplos. Parecidos com os arrodissements de Paris. Escrevi isso na altura da reestruturação que Santana fez e que apesar dos defeitos ainda não encontraram melhor.
Relativamente à reabilitação dos bairros históricos, o modelo de Santana substituiu o que havia em que os Gabinetes locais podiam lançar empreitadas e bem assim qualquer serviço da Câmara.
Pode com sinceridade dizer que esse sistema era melhor? Quando Santana chegou à Câmara, a maioria, para não dizer a totalidade, das pequenas empreitadas nesses bairros estavam paradas há anos, arrastando-se penosamente a cargo de pequenos empreiteiros desconhecidos, sem conhecimentos especiais e desejáveis exigidos à reabilitação urbana. Do Bairro Alto a Alfama proliferavam empreitadas que nunca mais terminavam.
Foi errada a reabilitação em conjunto que Santa realizou na Rua de S. Bento? Ou na Rua da Madalena? Não creio. Era preferível o sistema anterior liderado por uma Direcção Municipal de Reabilitação Urbana refém do PCP e isolada da restante coligação política? Você responderá.
Em relação à propaganda em telas, quem é o campeão? Santana? Não sei, Pedro. Ao menos as dele eram para anunciar trabalho feito, não promessas.
Em relação aos novos loteamentos, quem é que promoveu mais megas loteamentos na periferia da cidade? Quem aprovou matinha, braço de prata? Não me parece funddamentada a sua posição. A não ser que se refira ao Colombo e ás suas torres, ou aos estádios do Sporting e do Benfica.
Quem apresentou uma solução que poderia ter viabilizado o Parque Mayer e a Feira Popular? Ainda está por provar que essa operação era negativa e prejudicial à Câmara. Só no final se dirá. Quando António Costa arranjar uma solução.
No que respeita ao desporto, foi Santana que esqueceu as Piscinas dos Olivais e do Campo Grande? Essa é boa… Há quantos anos estão a precisar de obras? E depois de Santana? Passaram 5 anos, Pedro. Não terá havido tempo? O cartaz de propaganda colocado no Campo Grande por António Costa antes das últimas eleições a anunciar a recuperação da piscina, ainda lá está…
Se quiser falar na encomenda de projectos via empresas municipais para ultrapassar os condicionamentos dos concursos públicos, também podemos falar na Frente Tejo. Ou na razão porque surgiu em tempos a Ambelis…
Em relação ao trânsito, creio que está a esquecer o túnel da Baptista Russo, o túnel do Rego, o Lisboa Porta a Porta, o fecho dos bairros históricos ao trânsito, os parques de estacionamento do Campo de Santana, da Calçada do Combro.
Quanto às contas, ainda veremos quem é que se preocupou mais ou menos com o controlo financeiro.
Por isso, digo que são chavões, slogans, frases ditas muitas vezes, sem serem precisas, correctas, justas.
E, como viu, não falei da Alta, onde seguramente Santana, como Carmona foram muitos mais vezes que António Costa, conhecendo e preocupando-se muito mais.
Posso-lhe assegurar que, quer um, quer outro, não passaram 15 dias, sem virem à Alta. Acompanhando obras. Procurando soluções. Despachando rápido o que lhes era apresentado. Porque conheciam. Porque confiavam. Porque havia motivação, genica, vontade de fazer.
Percebo o seu desânimo, que aliás partilho. Não creio que Santana, tenha feito tudo bem. Fez muitas coisas que não partilho. Mas, caramba, Pedro. O que se passa hoje é muito, mas muito pior. E ainda só agora começou.
Um abraço
Carlos
Continuemos então…
O facto de a concentração de serviços se manter até agora não é prova dela ser uma benesse. Se descontar dos 5, os anos de Carmona, sobram menos de 3. Desses, os primeiros 2 foram de tomada de pulso de uma vereação que pouco sabia ao que vinha ou ao que vinha encontrar. Acrescente a anunciada intenção de descentralização de serviços e recursos para junto das Freguesias e verá que existe a convicção de que esta concentração é mais prejudicial que benéfica.
Relativamente à reabilitação urbana. Os Gabinetes tinham autonomia para propor empreitadas; não as poderiam lançar sem as mesmas estarem obviamente cabimentadas pela sua Direcção e devidamente autorizadas pelo Vereador do pelouro que era quem tinha competência atribuida para isso. Em consciência lhe digo que era um sistema muito melhor. Pretender centralizar tudo é negar competência técnica e administrativa aos serviços. Pior, é implicar a desonestidade dos mesmos na decisão de lançamento das empreitadas. E em que é que ficamos: as obras estavam paradas há anos ou arrastavam-se? Há uma diferença, para além de eu discordar na totalidade dessa constatação. E discordo porque eu estava lá e a situação era mais dinâmica do que a que se lhe sucedeu. Quanto à sua afirmação de que os pequenos empreiteiros não tinham os necessários conhecimentos específicos à especificidade da reabilitação de edifícios antigos, devolvo-lhe o adjectivo – isso é um chavão, promovido pelas luminárias colocadas nos postos de direcção pela gestão Santanista, elas sim sem os conhecimentos teóricos e práticos necessários à reabilitação das zonas históricas. Quem é que detém os conhecimentos de reabilitação desses edifícios? Os grandes empreiteiros de obras públicas de betão armado que nunca actuaram nesta área? A EPUL que, à data em quase exclusividade promovia e fiscalizava nova construção? Ou os pequenos empreiteiros que, durante toda a sua vida, nada mais fizeram do que intervir em edifícios antigos? E, para quem se preocupava tanto com a qualidade técnica dos executantes, como foi possível lançar empreitadas de concepção/construção, sem projectos prévios, abrindo mão ou para incumprimentos legais ou programáticos ou para descontrolos orçamentais?
Respondendo à sua pergunta: já passou pelos prédios da rua da Madalena? Já viu o seu estado de conservação poucos anos depois da conclusão da empreitada? E porque não referiu a obra falhada da Norberto Araújo em Alfama? Não me venha dizer que foi o Costa que rebentou com ela…
Como bem sabe, porque são públicas e publicadas as minhas divergências com a política de reabilitação urbana do PCP, o sistema anterior não era bom. Daí a aceitar as imbecilidades que foram feitas, por pura incompetência e incapacidade técnica… E mais lhe digo: a política de RU seguida pela vereação de Santana começou por considerar como válidas as premissas instauradas pelo PCP (suponho que não havia "sumo" teórico para divergir), optando por trocar ou colocar na prateleira a maior parte dos técnicos com responsabilidades na vereação anterior. A maior parte, por houve alguns que se souberam "reconverter" politicamente a tempo. Lembro-me bem da argumentação oficiosa: a política era boa, os funcionários é que estavam mal dirigidos…
Quanto à propaganda, convido-o a passar pela Fontes Pereira de Melo e olhar com atenção para os paineis publicitários que ainda persistem no quarteirão que se segue, na direcção do Marquês, ao palacete do Metro. Ainda lá está o que Santana se propunha fazer no que respeita à reabilitação de edifícios (há algures neste Viver uma foto parcial de uma dessas telas). Quer contabilizar a obra prometida e realmente feita? (As telas mandadas pôr por Costa não são promessas: são pura e tonta demagogia).
Quanto ao Parque Mayer e à Feira Popular: é a mesma impreparação teórica e programática, o mesmo populismo e voluntarismo irresponsável. O que entende por viabilizar? O que é "viabilizar" um espaço baseado numa indústria de entretenimento decrépita e ultrapassada no tempo, sem qualidade de textos? O que eram as promessas de Santana aos artistas para além disso? Quem, para além de um descuidado propagandista que vive do momento da promessa – porque já estará longe quando as coisas tiverem o seu epílogo – poderá acreditar que a mera construção de novas instalações traria qualidade ao espectáculo da revista? Qual o poder de atracção da revista no presente face, por exemplo, às propostas de um La Feria? O das cadeiras confortáveis e do ar condicionado? Até parece a argumentação dos novos estádios de futebol – estádios novos, melhor futebol (então em Aveiro e no Bessa…)… Em que estudos económicos, em que inquéritos, se baseou Santana? Que estudos basearam a decisão de terminar com a Feira Popular em Entrecampos e de a mudar para Monsanto? Económicos? Urbanísticos? E que profundidade de convicção era essa que caiu com a sua própria afirmação de que não autorizaria a demolição de uma única árvore?
Quanto aos restantes parágrafos, a sua argumentação parece-me deficitária. Justificar um erro com a sua persistência às mãos de outrém não o reabilita – apenas apequena que o não erradica. E aí estamos de acordo – estes 3 anos (e não 5; os dois primeiros foram do homem apontado por Santana como seu sucessor) não têm sido famosos.
Mas deixe-me acrescentar só mais uma coisa em relação aos túneis. Sem intenção de ofender – nenhuma! – a sua argumentação é de um não técnico. Justifica a bondade dos túneis com um argumento redutor. Lá por resolver o problema de um cruzamento, um túnel não se transforma automaticamente numa boa solução para a cidade. Há que considerar que fluxos agrava e que em que pontos da cidade os seus efeitos se fazem sentir; se, em consequência do seu anúncio, mais ou menos viaturas se dirigem à cidade; se aumenta ou diminui a qualidade de vida dos habitantes e trabalhadores na sua vizinhança. A equação mais túneis = melhor cidade está longe de ser automática. Do mesmo modo, a construção de novos parques de estacionamento poderá ser benéfica ou não, dependendo da escala – tanto física quanto temporal se observa. Mas, claro, isto é muita ciência para um homem como Santana para quem apenas o presente interessa. Interessar-nos-ia um presidente assim? (Veremos se Costa ficará o tempo suficiente para colocar em práticas as Cartas entretanto aprovadas, veremos se avançará com o Plano Local de Habitação)
Percebo que, como apoiante de Santana, se sinta pessimista. Eu estaria mais pessimista do que estou hoje se Santana tivesse ganho. O que não me traz muita felicidade porque, mesmo assim, tudo tarda em mudar.
Só concordo em absoluto consigo no que respeita à Alta. Se Santana tivesse ganho, provavelmente já teríamos as novas instalações do CSM em construção e, provavelmente, muitos dos bloqueios da Alta desactivados. Mas isso, como sabemos, são contas de outro rosário. E, ainda que uma melhor Alta contribua para uma melhor Lisboa, não teríamos necessariamente uma melhor Lisboa só porque na Alta se estava melhor.
Um abraço também e o desejo de continuarmos esta discussão à volta de novas propostas para a cidade e não do percurso, das asneiras e das promessas incumpridas de dois, espero, próximos defuntos políticos.
Vamos a um chá ou um bom vinho?
Pedro
Bora Pedro
A um bom vinho… que prefiro ao chá…
E teremos muito que falar.
Do que Santana fez (mal e bem) e do que Costa, Roseta, Sá Fernandes, Nunes da Silva e Salgado não fizeram (infelizmente ou ainda bem).
Dos túneis, buracos, políticas e politiquices, decisões e silêncios, de cada um. Do que cada um fez para Lisboa ficar melhor. Com a certeza de que Lisboa merece bem melhor que o que tem sido feito por qualquer deles, por qualquer dos últimos presidentes. Penso que nisso não vamos divergir.
Um abraço
do
Carlos
Ai não Carlos, nem nisso – que falta nos faz um Duarte Pacheco, com a sua visão e o seu carisma! – nem no vinho.
Estamos combinados então.
Outro abraço!
Pedro
http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.asp…
Desculpem-me, meus senhores, mas é caso para dizer: venha o diabo e escolha um destes políticos que nos estão a tornar cada vez mais miseráveis!
http://www.lisboacomsentido.com/archive/doc/Propo…
http://www.publico.pt/Local/epul-anuncia-venda-de…
O plano é simples. Transforma-se Lisboa num enorme bairro camarário. Todos ficam dependentes da CML e cria-se uma "clientela" que sempre votará PS.
mpoa