Pintar é fazer o bairro
15 March, 2010 by Graça Índias Cordeiro

A limpeza dos muros do Parque Oeste na última sexta-feira, no projecto ‘o meu bairro é a minha cara’, lembrou-me a rica experiência de murais comunitários que, desde os anos 1960, pelo menos, se tem desenvolvido nalgumas cidades dos EUA.

A criação destes murais, que não só tem embelezado partes significativas de cidades como Chicago, Filadélfia ou Boston, como também tem criado vínculos de pertença entre o espaço e os seus habitantes, surgiu do desejo de acabar com os graffiti. A ideia inicial foi a de recrutar os próprios writers de graffiti e redireccionar a sua energia criativa para pinturas consideradas mais construtivas. Os programas de murais comunitários surgiram e desenvolveram-se.

Estes murais são pintados por jovens, orientados por artistas contratados no âmbito de associações de bairro, escolas públicas e outras organizações, nos seus tempos livres, aproveitando, por exemplo, as férias escolares. O trabalho destes jovens, devidamente enquadrado, tem contribuído para a renovação de partes degradadas das cidades, tem ajudado a revitalizar áreas abandonadas, a ocupar espaços vazios, a embelezar muros e paredes antes desoladoras e, sobretudo, a fortalecer vínculos sociais positivos entre os vizinhos e instituições que fazem parte dos bairros. Através da participação da população local e da incorporação de histórias e personagens conhecidas nos temas pintados, os murais comunitários têm, além do mais, ajudado a fortalecer sentimentos de identificação positiva com o bairro, reflectindo uma produção colectiva partilhada que tem construído sentidos de pertença.

O mural da imagem acima, ‘Unity through diversity’, foi pintado há anos na parede de um supermercado caboverdiano – Davey’s Market – , situado num dos bairros ‘mais negros’ de Boston, Roxbury, por onde eu passei quase diariamente no Inverno de 2009. Foi concebido, desenhado e pintado (e repintado) pelos jovens de uma associação chamada ‘Dudley Street Neighborhood Initiative’, uma das associações mais activas e determinantes em vários projectos de reabilitação urbana desta área da cidade.

Gosto particularmente deste mural, pois invoca o convívio inter-racial e a solidariedade inter-geracional, enfatizando a responsabilização dos jovens e a confiança que os mais velhos neles devem ter, ao som da conga tocada pelo jovem que, na pintura teria apenas 15 anos e que hoje é um dos líderes da DSNI.
Se limpar graffitis já foi uma boa experiência, imagino que pintar algumas paredes e espaços devolutos seja ainda mais empolgante…
Fotos de Lígia Ferro (excepto 1ª)
Para mais informação:



Espaços propriamente devolutos aqui na Alta não há, como sabes, mas há aquelas paredes enormes onde antes havia entradas de garagens, nos prédios de realojamento, há aquele morro amarelo, há paredes de prédios que talvez se possam pintar com o acordo de todos.
Mais uma vez, como na limpeza do Parque Oeste, as instituições que trabalham directamente com a população serão determinantes em levar em frente estes projectos. Importa que os murais sejam feitos sobretudo por moradores desse núcleo habitacional, mas a inclusão de outros é importante também para se conseguir outros objectivos para além do sentimento de pertença.
Gostei do post, Graça. Espero que nos mostres mais murais, e outras coisas.
Parabéns, bem-vinda!
Leu o meu comentário? Se achar pertinente, posso enviar-lhe uma situação, já resolvida, que se desenrolou com um parque para motas aqui no Parque Europa, ou melhor, um pouco abaixo dele…
Envie-me, então. Mas sem compromisso.
Ja o pode encontrar no e-mail
Grande pintor é o povo.