Comissão de Estética somos nós

19 November, 2009 by  

Para quem não gosta de ler coisas sobre música, salte para o terceiro parágrafo. Este post é sobre o projecto do Troufa Real para a Igreja do Restelo.

Em 1953, a 5 de Março, na totalitarista URSS, Stalin morre, deixando o país em choro forçado. No mesmo dia morreu também Prokofiev, mas a notícia só foi divulgada no Pravda 6 dias depois para não ofuscar as exéquias do “Pai do Povo”. Shostakovich, que passara grande parte da vida a compôr para a gaveta por estar vetado das principais salas de espectáculos até se resignar e começar a ceder às orientações estéticas do regime soviético, escreveu então a sua 10º Sinfonia. Segundo Solomon Volkov, o biógrafo do compositor, uma sinfonia inspirada em Stalin, um pretenso e secreto retrato musical do prepotente líder. A partitura suscitou dúvidas. Seria “optimista” ou “pessimista”? O Comité Soviético de Compositores analisou-a durante 3 dias, concluindo que era “optimista” e que podia então ser divulgada ao público. Estranha decisão, pensará quem ouvir a obra. As comissões de estética têm o karma de serem formadas por medíocres a quem a História trata de ridicularizar.

O PCP propôs há pouco tempo uma Comissão Municipal de Estética para a arte pública. António Costa, na altura, mostrou-se agradado com a ideia. A ideia acabou não vingar, mas fala-se novamente agora da necessidade da sua existência a propósito do projecto do Arqº Troufa Real para a Nova Igreja Paroquial de S. Francisco Xavier.

Continua-me a fazer impressão Comissões de Estética. Quem a compõe, com que critério, e com que estatuto? Que poderes ilimitados e direito têm de impôr a todos o gosto dos que a compõem? E se um Troufa Real acabar por cair numa Comissão de Estética, nomear-se-á um Comité de Supervisão da Comissão de Estética para salvaguardar as orientações previstas? Quais orientações previstas?

Por outro lado, custa-me fazer descer a discussão de assuntos tão nobres ao nível mais básico, dos leigos academicamente impreparados – e contra mim falo, claro.

Mas nestas coisas parece-me que o bom senso tem um peso tão grande que não se pode fugir ao assunto. A Igreja do Troufa Real é um aborto horrendo. Deixará uma marca impossível de ignorar na colina, acima dos Jerónimos, Torre de Belém, enfim, toda aquela zona, e custará 3 milhões de euros, dos quais o Patriarcado apenas dispõe do primeiro terço.

Troufa Real tem todo o direito a fazer projectos medonhos, a professar o “mau gosto” de forma militante. E nós, todos nós, temos o direito de dizer o que achamos disso.

Claro que dá um certo conforto ler o Arqº Nuno Teotónio Pereira, um dos autores do plano de urbanização do bairro do Restelo, dizer que a igreja que ali começou a ser construída na terça-feira é “uma aberração”, e a defender que a CML devia mandar parar a obra e a exigir outro projecto.

Eu gostava que a paróquia de S. Francisco de Xavier abandonasse o projecto, que a CML intercedesse nesse sentido apesar de o ter aprovado nos tempos do João Soares e do Santana Lopes.

E por aí, que opiniões há? Não se importam com o projecto, gostavam mesmo de o ver construído, ou também preferiam vê-lo apenas em maquete?

Comments

19 Responses to “Comissão de Estética somos nós”
  1. Odeio este projecto e nem quero pensar vê-lo passar da fase de maquete!
    Àqueles que acham deve ser construído, se calhar em nome de uma qualquer vanguarda e em virtude de Troufa Real ser uma "referência na arquitectura portuguesa" pergunto: e Teotónio Pereira, quem é?

  2. joaoralmeida says:

    O mamarracho parece um bolo de noiva.
    Com uma grande diferença: é que não se pode comê-lo e, assim, depois de desaparecido, triturado e digerido, poder ser expurgado para o devido recipiente camarário e transferido por conduta submarina até ao mar alto, onde possa encontrar as outras caravelas douradas, elas também já devidamente mastigadas há séculos pelos peixes do fundo do mar…

  3. Matilde says:

    Há muitos anos que se fala de uma Igreja para ali…
    Tanto tempo para isto!?
    Daria um bonito espaço verde. E tão mais simples. Tão mais barato.
    Valerá a pena incentivarmos as pessoas que não gostam a juntarem-se e expressarem-se?

  4. Se a imagem é da maquete da Igreja, eu diria que tinha sido um trabalho de miúdos dos centros de Ocupação dos Tempos Livres.

  5. CarlosMC says:

    Em meu entender, o gosto nunca pode ser critério para se construir um prédio ou uma igreja. É subjectivo, é datado, o que é feio hoje pode ser bonito amanhã, o que é para uns, não é para outros. Deve haver liberdade na criação, respeitando a lei e aquilo que é pedido e/ou encomendado. Há anos, as Amoreiras eram consideradas uma aberração. O CCB "estragava" e "tapava" os Gerónimos. Os centros comerciais do Martim Moniz uns monos. Tudo é relativo. Sou contra comissões de estética. Pela burocracia que cria, pelo princípio que lhe está subjacente e pela subjectividade inerente à decisão.
    Há arquitectos, artistas, projectistas, relativamente aos quais somos mais tolerantes. Mesmo que as suas obras sejam polémicas. Mas que não criam tanto "frisson", tanta polémica. Siza Vieira tem obras muito polémicas, muito discutíveis. Algumas com opções feias, frias, quase sem alma de tão puras.
    Mas não causa o mesmo barulho de Troufa Real ou de Tomás Taveira.
    Outro questão é se os equipamentos os edifícios públicos devem ter critérios estéticos especiais, diferentes. Entendo que, tirando as especificidades técnicas do equipamento em causa, que poderão condicionar a estética, mesmo aqui não deve existir um parecer de uma comissão de sábios da beleza.
    Não gosto da Sagrada Familia em Barcelona e ela está a ser construída há décadas e se calhar nunca ficará tal como Gaudi pensou. Mas alguém a põe em causa?

    • Tiago says:

      Eu continuo a achar as Amoreiras feiosas, que o CCB tapa os Jerónimos e que os centros comerciais do Martim Moniz são uns monos, Carlos. Sim, e também me enjoa o Gaudi, quase tudo. Tal como não gosto da sacralização de pessoas de quem passar a ser mais difícil dizer mal, como é o caso do Siza Vieira.

      Mas acho que as pessoas têm o direito de dizer em voz alta que não gostam de determinada opção. E têm o direito de se juntar e gritar as suas opiniões em coro. E isto, claro, independentemente do edifício em quastão ser público ou privado.

      E sim, eu acho que o gosto pode e deve ser critério e que uma democracia deve promover a participação das pessoas, mesmo na opinião. O que foi feito no eixo central de Lisboa, as avenidas, no tempo do Abecasis foi um atentado à memória e um atentado estético. Vários prémios Valmor foram demolidos para dar lugar a arranha-céus sem marca, sem estilo e personalidade. Só perdemos com isso.

      E talvez se na altura a população estivesse mais bem informada, fosse mais crítica, e houvesse meios tecnológicos como os de hoje, se pudesse ter hoje um eixo central que dignificasse Lisboa, que nos desse memória.

      • Nina pereira says:

        Oi Thiago, eu estive em Barcelona e conheci as criaçoes loucas de Gaudi, mas achei interessante, o que me deixou chocada, foi em Figueires, aquelas coisas de Salvador Dalí, aquela imagem no pátio da igreja, aqueles Oscar gigante do lado de ovos no teto de um edificio todo cheio de cáca.
        Parace uma gosação!!! Respeito muito o trabalho dele, mas quando se trata de esculturas…..terrível!!! sou formada em artes,e viajo sempre procurando conhecer as cidades de artistas famosos, mas me reservo o direito de criticar, ninguem tem obrigaçao de gostar de um trabalho. acho até interessante pq as pessoas se interagem de alguma forma…kk

  6. CarlosMC says:

    Concordo com isso tudo Tiago. Todos temos o direito de dar a nossa opinião e de expressar os nossos gostos. Qualquer que seja o edifício em causa. Relativamente a isso não tenho dúvidas. Não foi isso que pus em causa. O que não concordo (e aparentemente tu também não pelo teor do post) com a existência de uma comissão administrativa que tem por missão dizer o que é bonito e feio. Isso não concordo.
    Que qualquer um de nós pode exprimir o que entende relativamente ao tema, é evidente, que sou favorável.
    Os exemplos referidos da destruição de prémios Valmor é obviamente inaceitável e criminoso. Mas tenho dúvidas que uma comissão de sábios da estética, evitasse a desgraça. Além de que, em muitos casos, o que está em causa são violações grosseiras das mais elementares normas jurídicas.
    Que infelizmente, continuam a ocorrer ao longo dos anos.
    Agora, em relação à estética dos edifícios, é que me parece que não existe forma administrativa e formal de se controlar. E penso que não deve existir. A arquitectura deve nesse ponto ser livre. Dentro, obviamente, de alguns parâmetros mínimos.

    • Tiago says:

      Ah, então estamos de acordo.

      A solução não é alguma forma administrativa de controlo estético, antes o desenvolvimento do gosto de todos nós, da população, por intermédio da escolaridade, de exposições, de divulgação de arquitectura, de exemplos de preservação de bairros histórios, exemplos de renovaão de bairros históricos, para o nosso olhar e capacidade de indignação não fiquei indiferente às opções tomadas.

      E depois, claro, uma maturação democrática e de hábitos de participação e cidadania que nos faça conseguir juntar e apelar.

  7. Parece-me que o cerne da questão está exactamente em saber quem tem competência para decidir o que é esteticamente bom ou mau? E o que, no que respeita à arquitectura, está “dentro de alguns parâmetros mínimos”, como refere CarlosMC. Que parâmetros mínimos são esses é, se quisermos, também discutível.

    A Estética é Filosofia e, como tal, discutível até à exaustão. Gostamos ou não gostamos, e entrámos no campo das emoções. A coisa complica-se. Porque no que toca a arquitectura temos obrigatoriamente de viver NELA. Em espaço confinado ou não, a gosto ou contragosto, somos influenciados por ela.

    Também não aprovo comissões de estética, mas também concordo com o Tiago: é preciso “educar o gosto” e criar hábitos de participação cívica. Ou seja, estou cheia de dúvidas e a cair novamente na questão filosófica: quem sou eu para dizer quem tem o gosto suficientemente educado!?!

    Mas que nunca gostei e continuo a não gostar das Amoreiras, que gosto do CCB apesar de tapar os Jerónimos, e que não gosto nada deste projecto de Troufa Real, disso eu tenho a certeza.

  8. Tiago says:

    Pois.

    Mas outra coisa a discutir é porque é que a constestação nestes casos aparece apenas quando o edifício começa a ser construído? Provavelmente porque só nessa altura o grande público dele toma conhecimento.

    Mas então alguma coisa poderia ser mudada? Para além de todos nós termos de andar mais atentos, mais informados e mais activos? O projecto esteve em discussão há dez anos na Ordem dos Arquitectos e a maquete exposta numa galeria da CML. Aparentemente sem causar polémica.

  9. Tiago says:

    O Troufa Real entretanto responde aos críticos, hoje, no PÚBLICO.

    A ler: http://jornal.publico.clix.pt/noticia/20-11-2009/…

  10. naf says:

    Há uns anos num programa televiso José Hermano Saraiva dizia a propósito de uma polémica semelhante "(…)gostos discutem-se sim, e há bom gosto e há mau gosto". E enquanto possa admitir que os gostos se podem de facto discutir (ou confrontar com o dos outros) não creio que haja bom gosto e mau gosto.
    Muitos edificios e monumentos foram no passado considerados abortos, aberrações e iam contra o gosto da maioria e hoje são monumentos visitados e admirados por actuais maiorias.
    O projecto do Troufa passou-me ao lado (sou distraido) e neste post só depois de ler vários comentários me apercebi que o estranho objecto na imagem era a maquete (mais uma vez, sou distraido). Não gosto. perturba-me até. Mas agora que o vi quero vê-lo construido.
    Se começamos a votar, ou fazer baixo-assinados, sobre o que pode um artísta criar que é isso se não uma comissão de estética alargada? Onde fica a liberdade para quebrar barreiras e extender limites? Não nos estaremos dessa forma a auto-condenar a uma uniformidade de estilo? A resignar-nos a um mundo onde todas as obras são consensuais e arranjadinhas?
    Preocupa-me mais que o patriarcado só tenha 1/3 do dinheiro necessário à contrução. De onde virá o restante? Que se construa, mas não com o meu dinheiro.

  11. MrSteed says:

    Ó naf, isso é bullshit atrás de bullshit…

    Existe uma diferença muito grande entre liberdade artística para escrever um livro ou pintar um quadro e um edifício público. Em termos de custo e em termos de escolha por parte de quem consome essas peças. Os arquitectos, ao contrário do que muita gente pensa, eles próprios incluídos, não são artistas e um edifício não é, à priori, uma obra de arte. Tem uma função primária que é ser utilizado por pessoas. E é algo que nos é imposto, está ali, e vai estar durante mto tempo.

    Por outro lado, aceitando que os arquitectos são uns grandes artistas, não são uns deuses intocáveis. Por obra e graça de quem é que não podem ser criticados em praça pública? Especialmente num país empestado de horripilantes excrescências produzidas por arquitectos mais preocupados com os seus enormes egos e teorias criativas plenas de treta, do que com a utilização prática e impacto dos projectos que assinam?

    O projecto do Troufa é uma bosta. Podem não concordar, podem adorar, mas é uma enorme e mal-cheirosa bosta.

  12. cvp says:

    Gostei dessa analogia dos trabalhos dos miúdos dos OTL! E gostei também deste debate, levanta a questão do costume.

    Diria que "dantes, no tempo dos reis e dos academismos", não havia espinhas: depois de passar uns anos a aprender como se deve fazer (tanto tecnicamente, como esteticamente), um artista, fosse pintor, escultor ou arquitecto (passo aqui a controvérsia da constituição deste grupo, a qual julgo que nessa altura não se punha como agora) passava a mestre ao fazer a sua obra prima, a qual era avaliada segundo os cânones impostos pelas academias. Ao cair nas graças do rei, a obra era financiada, produzia-se, e pronto, já está, é aquilo que passa a contar, é aquilo que é bom gosto, o rei e a academia assim o decidiram. E o povo que se deslumbre, isto se conseguir chegar a ver a obra.

  13. cvp says:

    Agora as coisas são mais complicadas, parte-se do princípio da liberdade individual, a qual permite e fomenta uma iniciativa individual, mas cuja concretização vai, muitas vezes, ter um impacto colectivo, como é o caso da arquitectura, da arte pública, design urbano, etc., onde frequentemente existe celeuma.

    Passou a aceitar-se que é a ideia individual que traz inovação, só que indivíduos não faltam, nem indivíduos idiotas. E o maior problema está em poder avaliar essas ideias e poder dizer "esta ideia não vale nada", a partir do momento em que se também se passsou a aceitar a subjectividade em certos contextos. E, para além disso, há ainda factores "externos" que acabam por favorecer este ou aquele indivíduo na possibilidade da sua criação…

  14. cvp says:

    Passou-se a aceitar a liberdade individual na criação. E no caso de um quadro, ainda terei a possibilidade de o comprar ou não, tal como tenho a opção de ir ou não ver um teatro, um filme ou uma exposição. Mas, nos casos como o desta discussão, para o lado do especator a imposição continua, como no tempo dos reis e das academias!

    Posto isto, diria que restam as opções:
    – Volta-se atrás com a liberdade criativa, aos academismos, criando, por exemplo, as comissões estéticas, o que sinceramente me parece irrealizável e inútil;
    – Opta-se por produções sem qualquer fundamento subjectivo. Acabava-se assim de vez, por exemplo, com a arte pública, o que também me parece errado, senão impossível;
    – Segue-se para a frente na evolução, procurando, por princípio, soluções de consenso. Isto dará mais trabalho, tal como acontece com os processos democráticos em geral, e ainda está por desenhar um meio que concretize isto de forma eficaz. Mas penso que esta é a via a tomar. E pode parecer evidente, mas nem toda a gente é desta opinião.

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