A Lisboa dos Bairros (I) – A Encosta da Penha de França
18 May, 2009 by Pedro
Estabelecemos empatias com a Cidade. As gentes que as habitam; os recantos que nos relembram momentos, passados, gestos perdidos; os cafés, as lojas, as esplanadas. E há os edifícios, se nos dermos o tempo de erguer os olhos e disfrutar.
A Cidade oferece-nos a possibilidade de melhor conhecermos quem nos antecedeu na sua ocupação: em parte (ou no todo) quem a ocupou é quem nos ocupa geneticamente, a sua visão do mundo, ficou-nos marcada na matriz cultural que herdámos. Ver a cidade antiga é perceber que não há acasos, a pobreza urbana e arquitectónica de que nos queixamos hoje é fruto da incultura visual dos nossos antepassados. Curiosamente, a vivência urbana actual é tão falha de qualidade que encaramos como bons, fracos exemplos do passado, pastiches, aproximações, soluções encontradas por aprendizes ou amadores.
Arquitectonicamente, percorrer as ruas da Cidade é folhear um manual da sua História portuguesa. Ter a possibilidade de ver como se materalizaram as diversas épocas é um privilégio, no limite, uma esquina pode ser a fronteira entre dois séculos.
A encosta da Penha de França na freguesia dos Anjos (situada a nascente da Avenida Almirante Reis) traz uma dessas hipóteses .
Começou a ser urbanizada nos finais do século XIX, em três fases tão distintas no tempo que os edifícios de cada uma têm estilos arquitectónicos bem diferentes.
O Bairro Andrade foi o primeiro e tem a curiosidade de ter a sua toponímia de acordo com as família próxima do seu promotor/proprietário (Rua Palmira, Rua Maria, Rua Maria Andrade, Rua Andrade).
Seguiu-se-lhe o Bairro de Brás Simões, renomeado durante a I Guerra Mundial para de Inglaterra e, sem orignalidade, as suas 4 ruas evocam a velha Albion: Ruas Cidade de Manchester, Cidade de Cardiff, Cidade de Liverpool, Poeta Milton e Newton.
A arquitectura dos edifícios que o integram continua o percurso “gaioleiro” que se constituiu como degenerescência do vocabulário setecentista introduzido pela reconstrução da Baixa, com a introdução da estética decorativa própria da art nouveau.
O topo da Rua Cidade de Manchester pareceu-me mais cidade de Paris
numa das escadarias de Montmartre.
A Cidade de Cardiff, na sua sinuosidade, é uma caixinha de pequenas surpresas que vai deixando descobrir.
Vários prédios recuperados trazem alguma esperança na revitalização do bairro – ainda que o comércio existente não ultrapasse muito as pequenas mercearias moribundas.
Ainda há muito edifício podre, há espera de um empresário inteligente ou de uma morte lenta.
E eu em verdade vos pergunto: o que fazer perante tanta casa vazia? Ignorar esta realidade e continuar a permitir – em nome da liberdade de empreender e da livre iniciativa do homem – a construção de mais edifícios nas áreas livres, como fez a CML nos últimos 30 anos? Ignorar o seu potencial de realojamento – como fez a CML nos últimos 25 anos – e continuar a canalizar verbas para PERs novos e já tão velhos?
Deixem-me propôr coisas em jeito de desafio, neste tempo de inacção (desculpem, o ministro da Agricultura discorre em fundo sobre o que os outros deviam fazer em substituição do seu ministério – mistério… – que nada faz) e de reclamação.
O Estado que crie um novo programa em substituição de RECRIAs e PERs, de RECRIPHs e PROCOMs que permita a expropriação de edifícios sem viabilidade financeira de reabilitação. Que a CML proceda à sua demolição e os deixe em espera – de que o quarteirão seja demolido na totalidade ou que o crescimento da população torne viável a sua construção. Que se proceda à sua venda em hasta pública para habitação a preços controlados (o que é diferente de habitação para pobrezinhos) ou que a EPUL proceda à construção para aluguer “controlado”. Que no respectivo projecto se considerem as necessidades de estacionamento, áreas comerciais e de terciário, espaços verdes, áreas de lazer (Difícil? Nada, temos do melhores arquitectos do mundo).
(continua)















Olhei para as escadarias da Rua de Manchester e lembraram-me também Paris, Montmartre. Saudades.
Temos dos melhores arquitectos do mundo, aceitemos que sim, mas a preços compatíveis para projectos de custos controlados? Quanto às ideias de reabilitação, que implicam todas as necessidades de uma cidade completa e preparada para ser saudável, voto a favor.
Estamos mesmo num problema, não é? Não há pessoas suficientes para tanta casa. Reabilita-se quarteirões inteiros (ora Baixa, ora Bairro Alto, ora Alfama, ora Alcântara, ora Penha de França e muitos mais) para quem? Talvez proibir novos processos de loteamento que não estivessem previstos (estou a lembrar-me de defender a conclusão da Alta, sim) fosse uma solução em Lisboa, mas isso também não impederia os concelhos vizinhos de continuar a fazer casas e chamar para si a população que não encontra possibilidade de comprar ou alugar casa em Lisboa. Se é que ainda há…
Parece-me que o problema é sempre o mesmo. Gente disponível (sem a amarra do empréstimo a 40 anos para compra de casa) para isso tudo, onde está?
Sim, sim, dos melhores do mundo e muitos com know-how suficiente para fazer boa arquitectura a preços controlados – lê o que o Arq. António Baptista Coelho tem publicado no Infohabitar e talvez te surpreendas com tanta coisa boa que se tem feito. A construção a preços controlados não tem que ser a vergonha que vemos por aí – e que grande influência tem no estado de espírito dos seus habitantes.
Se não há pessoas suficientes, pois que se proceda à demolição do irrecuperável e se deixe o espaço em espera – não gostaríamos todos de mais espaços de lazer – de descanso, um banco e uma sombra é mais que bom! – por troca com a ruínas insalubres que enxameiam os nossos bairros?
Quanto ao "chamamento" da população para os concelhos vizinhos: porquê? O que estava subjacente no meu texto – e que não disse – era que o novo programa, com as expropriações, permitisse o controlo dos preços de venda. Actualmente, é a especulação dos preços dos terrenos a principal responsável pelos valores absurdos que atingiu o metro quadrado de habitação. Isso e a pacatez do consumir que, insisto pela enésima vez, continua a comprar gato por lebre. É natural que a maioria seja ignorante no que respeita à técnica e à qualidade da construção. O que não é natural é que, quem se dispõe a passar uma vida a pagar um investimento, não se assegure da qualidade do que vai comprar (e da respectiva relação qualidade/preço), e que o Estado não crie condições para que quem compre esteja bem informado.
🙁 Tanto prédio degradado e tanta casa vazia….
Gosto da proposta, Pedro: recuperação, novo programa de realojamento, venda ou arrendamento pela CML a preços controlados, demolição e espaços em espera…
Espaço urbano de qualidade, local para habitação, comércio, serviços, estacionamento, lazer….
Penso que os arquitectos existem, sim. E vontade política, onde está?
Ui, vontade política!…
Apesar de todas as declarações de amor pela cidade, o que é facto é que nada se alterou nos últimos 20 anos. É fácil fazer PERs (basta usar as verbas dos empréstimos e construir em terrenos camarários), é fácil lançar-se empreitadas ou mega-empreitadas em alguns dos bairros históricos.
Difícil é tomar medidas que resultem porque essas exigem coerência de pensamento e de actos, exigem um pensamento estruturado, exigem tempo, exigem coragem. Qual dos partidos que são habitualmente poder se quer meter por esse caminho? Nenhum, até agora. É muito mais fácil falar, ser demagogo e lançar obras de fachada – o abortado elevador para o Castelo, o projecto do Parque Mayer, os túneis, os PERs.
O Plano Local de Habitação tem todas as condições para ser uma pedrada neste charco, veremos se não vai ser abafado pelo establishment político.