Esquinas (I)

22 April, 2009 by  

Gosto da arquitectura das esquinas. Um princípio tão trivial, o encontro de duas rectas e um mundo cheio de possibilidades de o resolver. Quando não dormem, quando querem, quando deixam de ser amanuenses, os arquitectos são uns tipos porreiros para nós, mortais confusos. 

Estimulam-nos. Baralham-nos. Boquiabertam-nos. Trocam-nos as voltas, fazem-nos sorrir ou – o que não é pouco – libertam-nos deste torpor de ocupantes de uma cidade provinciana, molengona e decadente.

Habitando lados opostos da Avenida da Liberdade, deixo à vossa consideração estes dois exemplos que encerram uma ironia.

esquinas-3

Ruas Alexandre Herculano/Camilo Castelo Branco

Há entre eles pelo menos 30 anos de afastamento. Mais do que a diferença temporal, separa-os uma profunda diferença ideológica. Não sei quem é o autor do mais velho mas sei quem são os autores do mais jovem. E sei o suficiente da história recente da nossa arquitectura para os colocar em extremos opostos da leitura que fizeram do mundo.

 

Ruas Castilho/Barata Salgueiro

Ruas Castilho/Barata Salgueiro

A ironia é que, apesar disso – que é tudo – apesar de um se apoiar reverencialmente nas imposições de gosto do Estado Novo e um outro arriscar, uma para a época original devassa de interiores e alguma exposição estrutural (influências do Centro Pompidou?), apesar do monolitismo de um e da dinâmica de volumes do outro, apesar do conservadorismo do primeiro e da rotura com a envolvente oitocentista do segundo, em termos de  resolução da esquina, seguiram uma mesma solução: as duas frentes de rua ligadas por um corpo cilíndrico.

Mas diferenças há tantas que gostaria que vocês mas ajudassem a descobrir. Não querem fazer deste blog um universo de discutores ?

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