Infohabitar – O “luxo” na nossa habitação
20 April, 2009 by Pedro
Novo artigo do Arquitecto António Baptista Coelho na info-revista do Grupo Habitar.
No mercado imobiliário agressivo que nos cerca, estamos rodeados de poluição propagandística. Para uma população sem cultura arquitectónica ou referências nas cidades que a habilite a separar o trigo do joio, “luxo” passa a ser tudo aquilo que o “outro” aparenta ter do outro lado da rua, no bairro ao lado, no país mais rico. E “luxo” é o artefacto, ignorando a qualidade dos materiais intrínsecos, “luxo” é a quantidade de espaço em detrimento da qualidade da organização desse espaço, “luxo” é a piscina e os espaços comuns privativos em detrimento da vida em comunidade e da interligação em vizinhos.

Chelas: quando o Estado recorre ao decorativismo feérico como disfarce da má qualidade arquitectónica, dos materiais e do espaço público
Vendem-nos como “luxo” aquilo que deveria ser obrigatório. E pagamos preços de luxo por fogos menos que banais.
Entendamo-nos: o Estado tem tido um papel gravíssimo de omissão na condição urbana e arquitectónica. O próprio Estado quando promotor tem tido, a maior parte das vezes, um comportamento desleixado, ele próprio justificador da condição “luxuosa” em elementos que deveriam ser triviais.

Chelas: Espaço público mal pensado e menos cuidado, arquitectura acabrunhante.
“Viver bem em excelentes condições habitacionais não é um luxo no sentido que damos aos condomínios luxuosos onde vivem os ricos, pois é possível viver, praticamente, tão bem – naturalmente com menos espaço doméstico, menos mármores e menos empresas de vigilância – por um custo perfeitamente adequado a uma bolsa normal. E para quem não acredite, ainda, numa tal realidade juntam-se mais algumas imagens de habitação de interesse social portuguesa, para provar essa possibilidade bem real. Fica a “eterna” questão de, sendo assim, porquê tanta falta de qualidade urbana e residencial?“, escreve e muito bem, António Baptista Coelho, para concluir:

- Chelas, cooperativa de habitação
” (…) sobre estas matérias há três questões que devem ser colocadas em cima da mesa, sendo uma delas um conjunto de cuidados de projecto, promoção e execução que marcam uma actividade verdadeiramente profissional, sendo a outra questão a que se liga à, cada vez mais, vital exigência de uma verdadeira qualidade de Arquitectura, e a terceira questão é a urgência de que estas matérias, ligadas ao como habitar com mais satisfação, sejam levadas ao grande público, podendo, tendencialmente, constituir-se em exigências do grande grupo de todos os habitantes.“.
Tentemos, pois, ser mais exigentes, já que somos cada vez mais pagantes.


