Que hipóteses tem afinal Santana Lopes em Lisboa?
13 April, 2009 by Tiago Figueiredo

Dele se diz que tem sete vidas, que não há derrota que o mate definitivamente na política. Santana Lopes está de volta ao combate, novamente para CML, donde saiu desastradamente para o lugar de Primeiro-Ministro quando Durão Barroso foi para Bruxelas.
Santana Lopes tem apostado numa campanha silenciosa, para já, gerindo o tempo. E este silêncio parece estar a assustar os adversários.
Uma petição por uma “convergência de esquerda” para a CML foi lançada hoje, subscrita por personalidades ligadas ao socialismo, ao comunismo e ao BE.
É óbvio que há quem esteja a fazer contas, a prever cenários, e a ficar assustado com a divisão de votos à esquerda, com uma possível derrota na CML. António Costa tem boa imagem, passa a mensagem de estar a organizar a CML, de restaurar as finanças que tão esburacadas estavam quando lá chegou (os males começaram antes de Santana Lopes, já agora), mas tem sido inerte no mais importante que se espera de um Presidente da CML. Lisboa está parada, não há projectos, não há obra, não há visão nem respostas aos problemas mais graves.
A Alta de Lisboa teve o seu maior desenvolvimento durante o mandato de Pedro Santana Lopes, e nela vivem cerca de 35.000 pessoas. Nem todos eleitores, nem todos recenseados em Lisboa. Mas os restantes bairros não estarão numa situação muito diferente. É por isso um capital eleitoral não desprezável. O cortejo vai passar por aqui, então.
Mas depois de anos de abandono e desrespeito pelo acordo moral entre CML e munícipes, que campanha eleitoral será feita na Alta por António Costa e quem se lhe coligar? Que dirão da Porta Sul, da Santos e Castro, do Eixo Central, da malha 5, do embargo desnecessário da malha 14 (LX Condomínio), do Centro de Saúde, da Superesquadra, do Centro Cultural?
Não é do PSD que a esquerda tem medo. O PSD na CML tem sido inútil e incompetente. Mas Santana Lopes tem qualquer coisa diferente, supra-PSD. E isso assusta, pelos vistos.



Tens toda a razão, Tiago, é o supra-Santana que assusta e – obviamente – não o legado Santana, de tão inconsequente que ele foi. As contas estão feitas há muito e a esquerda começa a inquietar-se por não poder contrapor obra ao messianismo do ex-PM.
Penso, no entanto, que todos (e por "todos" entendo tanto os subscritores deste manifesto quanto os intervenientes políticos de todo o espectro partidário – eleitos, assessores e aparatchiks) estão, como sempre, a pensar em termos políticos e não em termos de cidade. o que é uma pena.
Estão os frentistas a pensar num modelo de cidade? Não, estão a pensar numa ideia de política. Quando mencionam a obra da coligação PS-PC falam de quê – da não estancada perda de população da cidade? Do continuado declínio dos bairros mais antigos? Da desumanização dos bairros sociais? Do Plano Estratégico da Capital ainda não aprovado? Quando criticam o túnel de Santana, lembram-se de mencionar que a moda dos túneis foi enormemente encorajada com Sampaio e Soares (Campo Grande, Campo Pequeno, João XXI)? Quando criticam o Gehry de Santana, lembram-se de acrescentar que também Soares teve os seus 5 minutos de Mayergalomania com Foster? Quando falam dos parques reabilitados, igualmente confessam que se esqueceram dum modelo para a sua auto-sustentabilidade? Quando falam das barracas eliminadas também admitem que a maior percentagem do buraco financeiro da CML vem dos pagamento da dívida contraída para construir os bairros para o realojamento (excepção feita ao Alto do Lumiar, mas esse esquema nasceu com Abecasis)? Quando falam das populações realojadas também reconhecem o desastre social no processo bem como a ausência de uma política de continuidade e de apoio às populações na adaptação às novas habitações? Quando mencionam com orgulho os milhões gastos na recuperação de alguns edifícios dos bairros históricos (política tão cara ao PCP) igualmente revelam o estado de conservação dos mesmos 5 ou 10 anos depois, as estatísticas de retorno dos antigos habitantes, os custos por metro quadrado de reabilitação, os valores dos subsídios concedidos aos moradores para realojamento temporário, a inflação nos preços de venda provocada pela compra descontrolada de fogos vagos por parte da autarquia?
Quando a esquerda exibe a sua superioridade moral para desdenhar a inconsistência de Santana e o seu neo-liberalismo, admite igualmente as obras de regime do edifício dos Paços do Concelho feitas sem contrato assinado e a destruição de vestígios arqueológicos para impedir a dilação do prazo da empreitada, dilação que seria sempre vista como uma derrota pessoal do Presidente? Admite a ilegalidade das obras em propriedade da família do presidente feitas sem licença e a lamentável exibição de caudilhismo que o mesmo demonstrou ao justifica, em público, essa ausência de autorização legal como questão de pormenor?
Quando se admite um frentismo de esquerda para derrotar o populismo personalizado de Santana, como se justifica a obra de propaganda, populista e pessoal que Soares tentou levar adiante, que foi o abortado elevador para o Castelo?
Para além do genérico do nome, o que unifica as visões de socialistas, comunistas e bloquistas? A propaganda? O amor à ruína, ao tipicismo, ao desleixo dos serviços? O desprezo pela classe média (veja-se o abandono dos deveres contratuais e morais da CML no caso da Alta)?
Agora que o papão da ingovernabilidade da minoria foi desmontado pela posporrência e falta de ideias do governo absoluto das maiorias, torna-se evidente que uma eventual coligação, a posteriori, de ideias que se complementam e respeitam é evidentemente superior a um pot-pourri arranjado à pressa em nome do medo da derrota.
É, aliás, identificador de um espírito democrático menor, preterir a coerência, a visão urbanística, social, cívica pela vitória a qualquer preço.
Mais Santana seria muito mau para a cidade. Mas um ramalhete de esquerda, desgarrado, desunido, com apenas uma visão frentista para apresentar, ainda seria pior.
Bem… Tu quando sacas do taco de basebol, saiam da frente! Gostava que não tivesses razão, gostava de ter argumentos para te contrariar. Mas três décadas de democracia (propositadamente com minúscula) levam-me a crer pouco numa visão mais optimista.
São fracos, são curtos, são falhos. São a contradição do que desde pequeninos nos foram dizendo que são as pessoas que ocupam lugares de poder. Eu julgava-os acima da média. Desiludi-me. Não são. São fracos curtos e falhos, de fato e gravata. Mas só o são porque são o reflexo da população. E portanto, a única solução que vejo para dissolver este lodo é debater, discutir, pensar e fazer. E lá vamos tentando. Temos tanto a aprender.
Olha, eu acho que essa solução de "debater, discutir, pensar e fazer" e a de "tentar" e estar na disponibilidade de "aprender" é uma solução muito válida. Pode até ser muito estratégica :-). Se estes não mudarem, talvez os que hoje assistem a este estado de coisas pensem diferente e actuem de forma diferente quando chegar a vez deles. Vou encarar isto como uma aposta no futuro.
Eh pá desculpem lá mas…
Volta Santana, tás perdoado! (sic!!!).
lol
sic?
desculpem mas votar no Santana é o equivalente nacional de ter votado Bush para o segundo mandato :p o homem é inenarrável. ele e mai sus santanettes muy louras e hablando "pa" em vez de "para" e "tá" em vez de está :p
Parece-me perigoso, até, comparar o período em que o Sr. Santana esteve na CML com o maior desenvolvimento da Alta. No período em causa, entre início de 2002 e meados de 2004, e depois entre 2005 e 2007, podemos dizer que a Alta se desenvolveu ou que apenas foram executados projectos isolados, embora importantes? Claro que coincidiu com a maior disponibilização de imobiliário na zona e com a abertura ao público de dois grandiosos e fantásticos parques urbanos. Mas não tinha mesmo que ser assim, tendo em conta o PUAL (que arrancou na prática em 1999, depois de aprovado em 1998) e a procura ainda elevada de casas nessa altura? Eu, que moro aqui desde o início de 2007, apostei no futuro. Se fosse pelo que vi feito, certamente não teria comprado aqui casa.
As obras iniciadas e sem fim à vista datam também desse período, como o eixo central e a Santos e Castro, bem como toda a estrutura viária e pedonal, que dá à Alta a consistência necessária enquanto bairro. Parece-me que o que se desenvolveu nesse período não foi a Alta, mas sim um conjunto de edificações perdidas no meio de baldios.
Resta saber se os que comandam agora o barco CML , ou os que comandarão no próximo mandato, podem de facto desenvolver o projecto e não apenas permitir a construção de mais edifícios.
Independentemente das crenças ou tendências políticas podemos, aqui, “fazer com que façam a diferença”.
Tiago, apenas discordo com o conceito "desenvolvimento".
A Alta sofreu, sim, "crescimento".
Para a Alta se desenvolver era necessário ter garantido à partida as condições para a estrutura básica de ruas, equipamentos e, como muito bem relembras, postos de trabalho. Ora, a meu ver, isso não foi feito.
O que quero dizer é que com um esqueleto débil e imcompleto, os músculos funcionam mal, não têm força. Para mim não faz sentido a evolução de um bairro sem as vias estruturantes (e não exclusivamente rodovias) a funcionar. A primeira obra que deveria ter avançado deveria ter sido o Eixo Central, o tal esqueleto.
Por outro lado, ainda me lembro do cartaz anunciando a Santos e Castro para Dezembro de 2004, mas como poderia estar se não se garantiu atempadamente a disponibilização de terrenos?
Não quero com isto dizer que agora é que é bom. Há muito a fazer e também acho que desde 2007, a CML podia ter feito muito mais. Mas estamos aqui para a relembrarmos diariamente disto!
Luís, acho que não percebo o teu comentário.
Não percebo se colocas em causa dar-se mérito a um candidato porque não te revês nele, ou se estás a analisar o desenvolvimento da Alta enquanto bairro e cidade.
Mas fazes a análise, localizas a edificação de lotes urbanizados na vigência do seu mandato, o lançamento de obras importantes (que entretanto emperraram com outros executivos).
A Alta enquanto cidade cristalizada, com comércio estável, população enraizada, identificada com o bairro, levará muitos anos a chegar lá e não será por decreto. É uma aposta de futuro, sim, mas preciso de presente. É preciso ir construíndo, levantar prédios, habitação, escritórios, comércio, criar polos de atracção que dinamizem a população, que a faça viver o bairro, neste caso a cidade.
Se concluis, como eu, que a maioria do edificado actual da Alta foi feito no período de vigência do PSL, onde está o perigo? Não é só fazer contas?
Perigoso parece-me é bloquear obras, deixar a cidade a meio, não a tornar coerente. Porque, lá está, os terrenos baldios não ajudam à identificação com a cidade, com a vivência, a falta de escritórios obriga a deslocações pendulares, a desertificação durante o dia, a fraco fomento do comércio, a isolamento.
E nisso, quem tem sido responsável? Desde o Carmona até agora, o que avançou?
🙂 Sim, estamos. Tens razão. Faltou fazer muita coisa, e outras foram feitas que podiam ter sido mais bem feitas. Mas antes isso a esta postura de "reflexão", de abortar projectos porque o outro é que é bom, de embargar obras por pormenores burocráticos. Isso sim é prejudicar a população. E não há visão, nem discussão.
Esta CML tem debatido muito Lisboa, tem. Mas borrifou-se por completo para a Alta. Até nos debates, quanto mais no resto.