“Lisboa Sou Eu” *

12 April, 2009 by  

Em ano de (várias) eleições, José Sá Fernandes, vereador dos Espaços Verdes na câmara de Lisboa, escreveu aos partidos políticos pedindo que não coloquem cartazes na zona do Marquês de Pombal e na Avenida da Liberdade. É que, segundo o vereador, os outdoors prejudicam a estética dos locais. E o cartaz do PSD, com a enorme cara de Manuela Ferreira Leite, está ali a fazer-lhe cócegas.

Sexta-feira, dia 10 de Abril, o gabinete de Sá Fernandes enviou um comunicado para as caixas de correio electrónico da sua base de dados com um parecer do Igespar (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) sobre o assunto.

E não é que o Igespar confirma que a colocação de cartazes no Marquês “interfere com as características da envolvente patrimonial em que este se insere, comprometendo a imagem arquitectónica e a envolvente do conjunto”? Mas Elísio Summavielle, director daquele instituto, apesar de reconhecer que “há concordância com o vereador Sá Fernandes”, referiu ainda que é preciso salvaguardar “a legislação específica, como parece ser o caso”. Isto porque, segundo o responsável, “nunca os partidos políticos pediram quaisquer autorizações pois considera-se que estão ao abrigo da lei eleitoral, que especifica já algumas salvaguardas, como os monumentos nacionais”.

Sobre estas salvaguardas, Sá Fernandes veste manto, coloca coroa e empunha ceptro: “O Igespar deve apenas limitar-se ao parecer técnico e esse é claro: interfere com as características da envolvente patrimonial”. Pois claro.

O PSD não é o único prevaricador. PCP, Bloco de Esquerda e Movimento Esperança Portugal também têm cartazes que gritam no Marquês de Pombal. E todos garantem que, apesar dos avisos de Sá Fernandes, não vão retirar os outdoors.

Não é que ache que não-sei-quantos cartazes ficam bem ao Marquês. Da mesma maneira que não gosto de ver bandeirolas da Super Bock ou da TMN à volta praça ou a Avenida da Liberdade fechada para corridas de Fórmula 1. Não, não gosto. Não acho sequer a Manuela Ferreira Leite bonita. Mas e que tal se o Igespar e o vereador Sá Fernandes se preocupassem com zelar por questões mais prementes, como dar dignidade a uma cidade que tem os problemas que tem de degradação, sujidade e insegurança?

Ontem resolvi ir conhecer um bocadinho a Ajuda. Em tempos passei alguns fins-de-semana ali, na rua do Cruzeiro, e quis ir ver como é que aquilo estava. Está a cair. De podre, de sujo, de triste.

O parecer do Igespar pode ser consultado na íntegra aqui.

* ou “Quero, posso e mando”

Comments

5 Responses to ““Lisboa Sou Eu” *”
  1. PedroCG says:

    Olá Marta, boa estreia 🙂

    Tens toda a razão, concordo contigo em absoluto e tenho muita pena que a política comungue com o antigo presidente do Vitória de Guimarães a convicção de que o é hoje verdade (na oposição), amanhã (no poder) pode não ser. Não há registo público da indignação do "Zé" há dois anos atrás quando o partido do qual era cabeça de lista colocou cartazes de propaganda com o seu nome no mesmo local.
    ..
    Que tal se tivesse dedicado a energia que dispendeu a estudar o assunto, questionar o Igespar e dar entrevistas aos media, à resolução dos problemas que afectam os vários espaços verdes da cidade? Por exemplo, o estudo do arranjo paisagístico sob o viaduto da Norte-Sul, aqui no centro do Lumiar…

    • marta_cs says:

      Olá, Pedro! 🙂

      Sobre os seus próprios cartazes, disse o "Zé" à Lusa: "Tive e fiz mal, não sabia, desconhecia a lei". Indignação nem vê-la.

      E eu devo aqui uma ENORME vénia ao Tiago pelo trabalho que lhe dei com este post. E que ficou tão bem com estas magníficas fotografias 😉

  2. Tiago says:

    Eu é que agradeço, Marta. Não deu trabalho nenhum e foi um passeio muito agradável. Parabéns pelo post e pela estreia!

  3. Lcrg says:

    Onde é que estão as mentes brilhantes que criam estes "outdoors"?
    Fazem lembrar os anos do PREC… muito parra e pouca uva!
    Que Porcaria!

  4. MrSteed says:

    se quisermos, a qualidade gráfica dos outdoors dos partidos políticos reflecte a mediocridade que neles vive: a falta de ideias, o seguidismo, o carreirismo e outros ismos de idêntico valor.

    os nossos partidos são de terceiro mundo. falta-lhes inteligência e nível. a colocação daqueles 8×3 em estruturas ferrugentas sem qualquer respeito pela cidade são, como infelizmente é hábito, um incentivo para ficar em casa no dia da votação tal é a boçalidade das propostas e o modo como nos são apresentadas.

    Falta maturidade para que a propaganda política passe a ter de se encaixar nas redes publicitárias que existentes (e são bastantes), nos suportes de mobiliário urbano da Decaux, da Cemusa, da MCO.

    É que, ao contrário destas coisas colocadas em qualquer sítio, os outdoors concessionados, obedecem a regulamentos e são supervisionados e mantidos – mesmo que achemos que os regulamentos não são grande coisa sempre são melhores do que esta balda com que os partidos políticos nos brindam em cada campanha eleitoral.

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