Cabuuuuuuum!

Gosto de edifícios que sejam intrinsecamente do seu tempo. Onde quem passa ou quem entre sinta o ar do presente que o gerou. Comunicar com um objecto destes é apreender – e aprender – como o mundo era visto, alguns dos seus valores. Podemos entreter-nos a detectar quais os sinais exteriores de riqueza válidos para esses nossos antepassados, o ideário político dominante, o grau de cultura da sociedade. É assim a valia da obra de arte.
Lisboa tem, como sabemos, uma soberana indiferença pela grande maioria destes edifícios. Parecemos aqueles filhos desnaturados que declaram um amor profundo pelos progenitores… na visita anual que fazem ao lar para onde os atiraram.
A nossa Câmara inventou há anos um paliativo para a sua má-consciência: se não temos força para impedir a sua destruição, então que declaremos a obrigatoriedade da manutenção da fachada.
É a lei Frankenstein.
Mata-se primeiro o edifício, após anos de abandono, janelas abertas e coberturas cirurgicamente destelhadas. Seguidamente declara-se a sua irrecuperabilidade e projecta-se um novo edifício no interior da casca, mantida por envergonhada decência. Depois constroi-se com o beneplácito da autarquia, feliz pelo seu contributo na defesa do património. E nasce mais um aborto arquitectónico, nem projecto inicial, nem arquitectura contemporânea.
Talvez a intervenção mais paradigmática seja esta, da avenida Almirante Reis, n.72:
e a mais famosa esta
A avenida da República é um aglomerado heterogéneo de estilos e não-estilos desde que a expansão da cidade aguçou o apetite dos investidores. Do boulevard tranquilo quase fora de portas, refúgio de endinheirados, à quase via-expresso ladeada por muito terciário e alguma habitação foi o caminhar de pouco mais de meio século. A aprovação em 2006 do Plano de Alinhamento e Cérceas da Avenida veio agravar o futuro dos últimos representantes do passado. Só o quarteirão da “Versalhes”, protegido por dois imóveis de interesse público (o prédio da pastelaria) e municipal (o edifício de esquina no nº23), parece (por enquanto, que os homens não são de ferro) estar a salvo do camartelo.
Durante muitos anos, a vida levou-me a passar regularmente pelo número 25.

Da presença imponente na avenida-boulevard ao envergonhado abandono à beira da via rápida: a evolução da urbanística lisboeta
Habituei-me a afrouxar o passo e a descobrir mais um detalhe na sua fachada hiper-decorada,

a apreciar os ritmos, a sentir um tempo-outro, a inventar histórias das gentes que nele habitaram durante um século e que terão assistido a tanto, à Noite Sangrenta, ao atentado a Salazar, ao evoluir urbano das avenidas novas.
Pensei que o luxo decorativo da fachada o punha a salvo de demolições ignorantes e que o bom estado de conservação aparente lhe garantiria um destino igual ao do seu vizinho fronteiro, onde proprietários inteligentes apostaram numa recuperação de prestígio. As telas publicitárias que lhe encobriram a fachada durante uns meses pareciam ser uma forma rentável de proteger os transeuntes de eventuais trabalhos de conservação e limpeza da mesma. Um cartaz entretanto colocado a anunciar o aluguer de escritórios parecia reforçar essa esperança.
Oh, engano meu. O pedido de demolição entrado na Câmara em 2006 afinal continuava o seu silencioso caminho. E eis que esta semana chegaram os homens e os materiais.
E com elas o camartelo.

Mas o pior de todo este processo é o majestático cartaz publicitário que a CML mandou afixar:

Lisboa melhora?
Orgulho em apressar a destrição de mais uma peça arquitectónica relevante? É isto que a actual vereação defende? Faltam-me as palavras.



é uma vergonha o que vao fazer com mais este edificio. o render mantem a fachada, mas acrescenta uma frente vidro na fachada dos lados e em cima do edificio. vai ficar HORRIVEL. nunca pensei que deixassem construir coisas assim. preferia tudo menos o que vao fazer, é gozar com as pessoas e desrespeitar a historia, a cidade, a arquitectura.