Reabitar Lisboa (V)

8 April, 2009 by  

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INTERVENÇÃO DA CML – BAIRROS SOCIAIS

É óbvia a rápida degradação da maior parte dos bairros sociais. Razões haverá várias. Umas arquitectónicas e urbanísticas – pobre qualidade dos materiais empregados, arquitectura em dessintonia com as necessidades familiares ou valores culturais, soluções urbanísticas inexistentes ou inadequadas – outras sociológicas – falta de hábito no uso de fogos em edifícios multifamiliares ou das infraestruturas que lhe são inerentes (quer nas partes privativas – casas-de-banho, por exemplo – quer nas partes comuns (elevadores)), quebra de relações de amizade por separação de vizinhos que levam a uma rejeição do novo habitat. A resolução destas situações passa normalmente pela tentativa de correcção dos resultados, através da intervenção no edificado ou da repressão das populações. Para além de caras, estas intervenções são pontuais, não procurando eliminar as causas.

Na minha opinião, subjacente à esmagadora maioria das atitudes está um profundo problema de auto-estima. É verdade que estamos a falar de populações com pouca instrução escolar, com rarefeito sentido cívico e habituadas a um discurso paternalista por parte do Estado e da maioria das forças políticas que lhes desculpa as “travessuras” porque porventura as acha inevitáveis numa população desfavorecida. É um circulo vicioso em que uns assim agem porque acham que é o que deles é esperado e outros assim deixam agir porque é o mais simples.

Como quebrar este círculo? Ensinando quem tem fome a pescar. Melhorando a auto-estima das populações, intervindo na sua qualificação.

Ensaiemos um diagnóstico sumário (e forçosamente simplista) de parte significativa da população jovem destes bairros: abandono escolar por força da desadequação dos curriculos ao mundo do trabalho, por desinteresse por matérias “longínquas” para a realidade que vivem; generalizada ausência de horizontes profissionais que implica a ausência de projectos de vida; desinteresse, revolta. E quem paga é o meio ambiente. As portas da rua e os elevadores vandalizados. Os graffiti nas paredes. Os equipamentos dos espaços exteriores destruídos ou roubados.

E se a estes jovens fosse oferecida a possibilidade de aprender um ofício? Não aprender a organizar reuniões ou a falar ao telefone ou qualquer outra dessas actividades que soam tão bem aos nossos olhos de classe média, antes algo que lhes esteja próximo, que lhes diga algo, cuja remuneração seja algo possível e óbvia? Jovens com uma quase certeza de profissão, com uma quase certeza de emprego, com uma esperança, um caminho passível de ser percorrido não serão melhores jovens, com uma relação diferente – e melhor – com o seu espaço?

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Vejamos agora o outro lado.

Existe a CML com uma renovada preocupação com o reabitar da cidade, com a melhoria das condições de habitabilidade das populações mais desfavorecidas, com a reabilitação dos prédios degradados e a percepção – certeza face aos valores investidos e aos resultados obtidos – de que é necessária a reconversão das políticas de reabilitação urbana.

Existe a GEBALIS, com a obrigação de gerir os bairros camarários, com uma pesada factura na parcela da manutenção, com a necessidade de diminuir o vandalismo e a rapidez da degradação dos espaços e – não menos importante – com o dever de melhorar as condições de vida nos bairros.

Existe a EPUL, que muito provavelmente irá reorientar a quase totalidade das suas operações para a reabilitação / reconstrução.

Existe a Misericórdia com verbas, vontade e vocação para o auxílio às populações.

Existem em muitos bairros ONG’s com o conhecimento profundo dos habitantes a quem servem e vontade e capacidade de bem fazer.

Porque não juntar todas estas necessidades e criar em cada bairro uma escola de ofícios? Que oferecesse cursos de operários especializados na área da construção – canalizadores, carpinteiros de limpos, estucadores/caiadores, especialistas em reconstrução de edifícios pré-betão?

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É uma situação ganho/ganhas para todos os intervenientes.

A CML ganha populações mais instruídas e com o saber para intervir em obras particulares de acordo com as necessidades do edifício. De alguma forma, esta força de trabalho especializada e que se sobreporá à população indiferenciada, permitirá uma maior aposta nas obras de manutenção obrigatórias.

A GEBALIS ganha um banco de dados que poderá utilizar na manutenção dos seus bairros. Mão-de-obra local, a trabalhar perto de casa (com menos deslocações na cidade), que também se “auto-rentabilizará” com “biscates” nos arredores dos bairros de origem.

A EPUL recorre aos seus técnicos superiores para a formação, rodando recursos humanos que também ganharão com a experiência, aprofundando, num processo interactivo, os seus próprios conhecimentos. Ganhará igualmente mão-de-obra especializada para as suas intervenções, com a formação efectuada de acordo com a sua filosofia e controlada por si.

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A Misericórdia alargará a sua área de intervenção, aplicando – bem – os seus recursos.

As ONG´s cumprirão a sua missão.

Finalmente e mais importante, os habitantes dos bairros ganharão um futuro. E ganharemos todos com isso.

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