Reabitar Lisboa (III)
3 April, 2009 by Pedro
A HABITAÇÃO COMO UM TODO
Como muito bem interpretado pela equipa camarária que procede à elaboração do PLH, a qualidade da habitação não se esgota no espaço interior: ela é também o espaço público e as condições de mobilidade de que os habitantes dispõem.
Actuar na habitação deverá ser igualmente definir políticas de reconversão do espaço público e da distribuição de percursos.

O ESPAÇO PÚBLICO
A nossa concha é o mundo. É intuitivo percebermos que a envolvente da nossa habitação afecta significamente o nosso agir, o nosso estado de espírito, a nossa relação com o meio e com os outros.

Um meio visualmente hostil, pouco interactivo, árido de locais de lazer – como são muitos dos espaços da cidade – é um meio que não convida a ser vivido. Mais – é um meio que não apela ao respeito. É um espaço de passagem entre o lar e o emprego, mero receptáculo de edifícios, paisagem de gente triste e ensemismada.
Ao intervir no espaço público a CML resgata parte da auto-estima perdida do cidadão; promove o usufruto da rua e a interacção entre os cidadãos; permite ainda criar apelo nas zonas escolhidas, realçando qualidades, relançando bairros com menores custos e sem o ónus do investimento em propriedade privada como é o caso de muitas das intervenções de reabilitação em prédios da zona histórica. O sucesso das políticas e do trabalho da SRU Ocidental é demonstrativo da fiabilidade de tal prática.
MOBILIDADE
Vale a pena continuar a pensar em melhorar os sistemas de transportes públicos e viário como forma de melhorar a mobilidade dos cidadãos?
Porque não romper o paradigma criado de que as pessoas têm de se deslocar para trabalhar? Não será mais fácil redefinir áreas de serviços?
Sendo o mercado de escritórios muito mais flexível do que o da habitação – porque a percentagem de arrendamentos é incomparavelmente superior – as políticas de condicionamento que a CML pode implementar terão um impacto e um resultado muito mais rápido. Em vez de começar por redistribuir populações poder-se-à redistribuir terciário, aproximando-o de alguns dos bairros mais populosos. Relembre-se os resultados que o concelho de Oeiras tem vindo a obter no chamamento de empresas com a criação dos “Office Parks” a que se segue a fixação de parte dos seus trabalhadores no concelho. Esta acção não requer um trabalho prévio legislativo – apesar da ausência de estatísticas (pela “ilegalidade” do facto): parece seguro considerar elevada a percentagem de pequenas empresas e de profissionais liberais instalados em fogos sem a devida licença de ocupação, isto é, fogos apenas legalmente autorizados a funcionar como espaços de habitação.
Uma intervenção cuidadosa da autarquia – disponibilizando fogos para serviços paralelamente a vistorias que interditassem o uso de fogos habitacionais pelo terciário – permitiria um primeiro rearranjo, com a vantagem de libertar mais fogos para habitação /arrendamento no centro da cidade.




A intervenção camarária no espaço público para lhe dar ou devolver qualidade e "resgatar a auto-estima do cidadão" é absolutamente essencial.
Mas também necessário que as pessoas se apercebam desse espaço como SEU, o que, como tristemente sabemos, nem sempre acontece. Muita gente arruma e limpa a sua casinha e suja e degrada o espaço público, mesmo ao lado da porta da sua casa.
É preciso que os cidadãos de "apropriem" do espaço público e interiorizem a noção de que a cidade, TODA A CIDADE, é espaço de TODOS e DE CADA UM de nós.
Exacto Luísa. O respeito individual pelo espaço público – para além do grau de cultura cívica colectivo – é muito dependente do exemplo do outro – principalmente do Estado. O Estado dá indicações firmes de que, não só se interessa em implementar o meu meio ambiente mas se interessa em mantê-lo? Investe na manutenção regular dos espaços e sanciona quem o degrada?
Infelizmente o Estado – melhor dizendo os seus actores – não tem a consciência de que é a locomotiva desta sociedade, de que tudo o que fazemos ou deixamos de fazer é tremendamente influenciado pelas suas atitudes. O Estado é laxista e torna-nos laxistas.
E sim, é melhor dizermos que não cuidamos porque não é nosso ou que, se pagamos impostos, eles que limpem por nós.
Pois é verdade Pedro, efectivamente o Estado dá o pior dos exemplos.
Na Alameda da Música, para falar só de um caso, o que resta de verde é pouco face ao lixo e à relva seca… as próprias árvores recentemente plantadas são capazes de não "pegar" por falta de rega.
Investiu-se a fazer mas não se investe a manter. E a foto do vidrão é paradigmática do que deveria ser punido.
Desperdiçam-se recursos e energia.
E nós a ver. Pergunto-me quantos anos serão precisos para sementes como a deste blog comecem a dar fruto…