Carnaval no Alto do Lumiar

2 March, 2009 by  

Um leitor enviou-nos um video feito na 3ª feira de Carnaval passada. Uma filmagem de um grupo de cerca de 50 adolescentes a brincar ao Carnaval, numa guerra de balões de água.

Nada de muito diferente do que fiz na adolescência quando vivia no Bairro Alto. O pessoal combinava o combate, estabelecia as regras, juntava-se em dois ou três clãs, pensava em esquemas para abastecer de munições (balões de água na maioria das vezes, mas havia alguns ovos também). Depois era a excitação das batalhas, das emboscadas, a adrenalina de ser surpreendido por uma tropa guerrilheira, o arrepio ao ouvir os balões rebentar a centímetros, a euforia de conseguir encharcar o adversário, de lhe acertar com o balão em cheio na testa. Havia os líderes, os estrategas, os malucos capazes das mais arrojadas ousadias. E também os danos colaterais, alguns por descuido, outros por parvoíce. Os mais ajuizados acalmavam os excessos e os ânimos que se exaltavam, pediam desculpa em nome do grupo, os menos miolados condenavam a benignidade da brincadeira.

E havia quem se chateasse a sério. Uns que tinham alinhado na guerra, mas revelavam mau perder, e outros que nada tinham a ver com aquilo e eram alvo da nossa estupidez. No video vê-se uma cena dessas, lamentável. E disse-nos o leitor que houve outras menos violentas, mas também desagradáveis. É pena, mas disso há em todo o lado.

São previsíveis os comentários negativos sobre o bairro e a sua população adolescente desocupada. Eu continuo a achar que estas coisas têm sempre lados desagradáveis e evitáveis, mas que são sobretudo, para além de naturais, importantes para o desenvolvimento dos miúdos. Soluções para os excessos? Melhor oferta educativa e recreativa para a população. Clubes, Associações ou Instituições que promovam iniciativas de grupo no dia-a-dia e não apenas esporádicas. Passar códigos de conduta e princípios de respeito pelo próximo não é mais difícil nestes jovens do que nos meninos dos melhores colégios. E existem muitos líderes e modelos fortes ali no meio que devem ser orientados e consciencializados do papel importante que podem ter.

Comments

14 Responses to “Carnaval no Alto do Lumiar”
  1. Anonymous says:

    Fica mesmo divertido com a musiquinha e o resto.

  2. Anonymous says:

    e depois querem ser tratados como “pessoas normais”… Palhaços!!!

  3. Anonymous says:

    Queria saber a opinião da rapariga que foi esmurrada e pontapeada sobre o adjectivo “lamentável” que o Tiago utilizou.

  4. Tiago says:

    Olhe, eu também. Mas tem outros adjectivos para usar? E bolinhas para assinar por baixo? Ou a opinião é mais fácil quando não se assina?

  5. Anonymous says:

    Senhor Tiago estimo saber que a sua adolescência foi frutuosa em batalhas de balões de água… felizmente que há outros seres humanos que passaram melhores dias…

  6. Anonymous says:

    Claro que tudo isto é natural e apenas alguns excessos são lamentáveis. Sem dúvida que boas iniciativas de Clubes, Associações e Instituições apoiadas por investimentos fortes em políticas Sociais vão contribuir muito para acabar com estes pequenos excessos. Mas mesmo bom seria arranjar mais um trabalhinho part-time numa destas Instituições.

  7. Anonymous says:

    “Passar códigos de conduta e princípios de respeito pelo próximo não é mais difícil nestes jovens do que nos meninos dos melhores colégios.”

    Não entendi…?
    Será que a culpa disto é da sociedade???
    Ou dos colégios???
    Sempre que leio a palavra “colégio” neste blog soa-me a escárnio a mal-dizer (não sei porquê)…!
    Preconceito? Será? Culpabilização por não conseguirem terem os filhos ou filhas nos melhores colégios???

  8. Anonymous says:

    Eu próprio ouvi o enorme alarido que estes grupos de adolescentes faziam ao passar pela rua com os seus balões de água. Nada contra… foi o Carnaval, etc etc.
    Mas só quem vive com vizinhos destes à sua frente é que sabe o que realmente passa. Barulho a todas as horas, carros com as portas abertas em ostensiva provocação decibélica de manhã à noite – até depois da meia noite, se for preciso (claro, as portas estão abertas para o nosso condomínio, não para o deles…). Considerava-me uma pessoa extremamente tolerante antes de vir para aqui viver, mas estes comportamentos reiterados estão a modificar-me um pouco. Começo a não acreditar (Tiago, perdoe-me) que iniciativas promovidas por associações ou instituições sociais tenham algum impacto realmente positivo nesta camada da população, visto que a coisa só piora de dia para dia, pelo menos aqui em frente ao Condomínio da Torre. Chega a ser desesperante querer usufruir do meu quarto, por exemplo, e ter a toda a hora um batucar altíssimo de um ou dois carros de portas abertas viradas para cá, com os seus donos a beber cervejas (claro que a garrafa vai depois para o pedaço de terreno ainda não ajardinado logo em frente). E isto todos os dias.
    Posso ter cometido aqui um off-topic, os leitores que me perdoem, mas uma coisa puxou a outra…
    De qualquer modo, Tiago, devo dar os parabéns pelo excelente blog, que se tornou uma referência incontornável para quem quer saber novidades sobre a Alta (e não só!).
    Um abraço.

  9. JP says:

    Estava a ver o vídeo e só me lembrava:
    Quem me dera ter uma rede de pesca daquelas que os arrastões usam. Iam todos à frente e de uma só vez.

    Enfim, oportunidades perdidas…

  10. Tiago says:

    Caro leitor das 8h45,

    não é off-topic, pelo contrário. É mesmo isso que devemos discutir.

    Se um vizinho do nosso prédio colocar a música alta incomodando tudo e todos, ou se deixar um saco do lixo no patamar, o que fazemos? Provavelmente falamos com as pessoas e tentamos resolver o problema. Às vezes corre bem, mas nem sempre.

    Qual a diferença quando o motivo do desconforto vem da rua? O facto de não conhecermos as pessoas? O facto delas serem doutro prédio e não as conhecermos nas reuniões de condomínio? O facto de termos medo de iniciar o contacto? Medo das consequências desse contacto? Medo de serem pessoas “diferentes” de nós?

    Não vale a pena fingir que não existem problemas no bairro. Mas muitos deles ou são lidos com exagero, ou são agravados pelo medo do desconhecido e por dificuldades (mútuas) de comunicação.

    Claro que é irritante ter vizinhos que põem o carro a batucar ostensivamente, que bebem cerveja e atiram as garrafas para o chão, que provocam os vizinhos com alarvidade. Isso existe e é muito, muito irritante. Mas quantas vezes tentámos pedir que diminuíssem o incómodo que nos causam? Não é mais frequente desistirmos e dizermos que as pessoas não têm cura, que jamais corrigirão os seus comportamentos?

    Não é mais fácil reduzirmos até as coisas, simplificando-as, classificando as pessoas em grupos sociais: os realojados incivilizados, e os novos moradores vítimas dos realojados?

    Mas para além da redução errada que se cria assim, o que fazemos realmente para melhorar o nosso desconforto? Qual a melhor maneira de melhorar as coisas? Quais as que estão à nossa mão e consideramos mais eficazes?

    E a existência de Instituições Sociais e Associações que promovam actividades onde os jovens tenham experiências de sucesso, contacto com outros modelos, acesso a formação e aprendizagem, é irrelevante para o seu desenvolvimento?

    Quanto às observações dos colégios, acredite que não têm a ver com qualquer simpatia ou antipatia. A referência que fiz teve apenas como intuito assinalar que há problemas e dificuldades que são comuns, que não são exclusivas de uma determinada comunidade escolar com características diferenciadas.

  11. Anonymous says:

    Caro Tiago

    Muito obrigado pela sua resposta. No que se refere ao assunto que abordei, devo dizer que sim, tomei a iniciativa numa altura em que se estava a tornar insuportável, e abordei com a maior das simpatias os referidos sujeitos, dizendo-lhes que tinha o filho doente e que necessitava descansar (e era verdade), pedindo o favor de diminuir um pouco o volume. E, com resposta arrogante, mal educada e provocatória, respondem-me que “só em respeito pelo seu filho é que talvez baixe isto! É fim de semana, posso estar aqui como quero e como me apetece!”. Não estou a deturpar nada, muito menos a minha simpatia de abordagem aos ditos senhores.
    Baixaram a música durante 5 minutos, após os quais regressou em força e em maior volume.
    Depois disto, não voltarei a contactar os indivíduos. Preferirei ligar para a Polícia. Mais uma vez digo que só quem tem estes casos à sua porta é que vive a experiência e não quem ouve meramente falar deles.
    Não estou com isto tudo a dizer que estes indivíduos devam ser banidos da sociedade, nada disso. Estou só a relatar um caso de grande complexidade social e de muito difícil resolução, visto que – neste caso específico pelo menos – o diálogo não resultou. E fica sempre a nervosa ideia de que se se insiste, ficamos com o grande perigo de sermos “marcados” e de nos acontecer alguma coisa, disso não tenho a menor dúvida.
    Admito ainda (debilmente), Tiago, que certo tipo de iniciativas institucionais possa mudar um pouco o cenário, mas acredite que a minha ingenuidade de início de vida no Condomínio da Torre há algum tempo que foi corrompida, e deixa pouco espaço para acreditar que esse tipo de intenções surta realmente um efeito real ou positivo.
    Claro que nunca se saberá se não se agir… e não podemos dizer que nada resulta. Não foi isso que eu disse. Efectivamente não sei o que se tem tentado para além do K’Cidade, por exemplo. Não sei o que resultaria se um plano efectivo de integração social fosse posto em prática, através de programas de actividades, formação e tudo o mais que fosse considerado pertinente. Não sou sociólogo, apenas um mero morador na Alta de Lisboa, que ainda acredita em todo este fantástico projecto.
    … mas enquanto ainda escrevo, está a música em altos berros do outro lado da janela… e terei de sair para o outro lado da casa se quiser continuar a ter alguma sanidade mental (e porque tenho a sorte de ter um apartamento que não dá só para a rua).

  12. Anonymous says:

    Era uma bomba cair no meio deles e isto passava logo…O que sonhei ser um sitio ideal para viver em paz, não se está nada a realizar… e querem ser tratados como iguais… a nossa sociedade é mesmo isto boas vidas para quem recorre ao rendimento social e pouca renda ou nenhuma paga e quem quer um sitio que no projecto inicial parecia calmo que se aguente…

  13. Anonymous says:

    A antiga acção social da igreja ao menos, entretinha os miúdos, dava-lhes um rumo – um sentido de vida. Agora a “intervenção cívica”, paga e deixa andar, lança-os pelas ruas sem qualquer projecto lúdico – dá trabalhinho e exige sacrifício da vida privada dos senhores e senhoras dos centros da musgueira! Estava à espera de ver um corso de carnaval organizado, os jovens ocupados a divertir-se criativa e ordeiramente. Mas a acção cívica também faz pontes como a função pública, tinha-me esquecido.
    Os nossos filhos, à solta, são tão bons selvagens como estes!

  14. Ana B. says:

    Este sentimento de impotência assalta-nos a todos e demasiadas vezes. É difícil, cansa, desespera. Os processos de integração são sempre processos longos, que não acontecem de um dia para o outro, que têm que ser consolidados. Gosto de pensar que as Comunidades, tal como as pessoas, também fazem um percurso e um dia alcançarão a sua maturidade. Até lá, não sei se temos outra alternativa que não seja a de continuar a chover no molhado, chamando a atenção para aquilo que nos incomoda e tentando mudar as coisas sempre que a mudança estiver ao nosso alcance para conseguir uma boa vizinhança. Continuo a achar que há coisas pequenas em que cada um pode fazer pequenas diferenças. Com o tempo e persistência, levarão a grandes mudanças.

    Na Alta há várias instituições e associações que diariamente desenvolvem actividades e dão formação com esse intuito. Mesmo nas pontes. Não tem chegado, ainda não chega. Espero que continuem a fazer mais e melhor.

    Percebo o desespero e a irritação. Também o sinto muitas vezes. Só acho que desistir é que não nos levará a lado nenhum. As redes e as bombas também não.

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